“Macário”, de Álvares de Azevedo 1

MacárioMacário é uma tentativa de peça teatral, uma narrativa dialogada a que se pode denominar drama – espécie dramática muito em voga no Romantismo, devido à sua liberdade de estruturação.

Para Mário de Andrade, Macário é a obra genial do poeta Álvares de Azevedo, enquanto o crítico Wilson Martins considera esse texto extravagante mistura de teatro, narração dialogada e diário íntimo: no conjunto e na estrutura é sem pé nem cabeça, mas desprendendo, sobretudo na primeira parte, irresistível fascínio.

O texto é dividido em dois episódios [e não em dois atos, como seria de se esperar de uma peça teatral].

Primeiro episódio

O cenário é uma estalagem de estrada. Macário, um jovem estudante de vinte anos, pede vinho para a mulher da estalagem, que diz que ali só havia aguardente. O moço mostra-se agressivo e intolerante, recusando o vinho do sertanejo. Está com uma garrafa vazia de conhaque, seu companheiro de jornada. Reclama também da ceia [couves com toucinho], atirando o prato na pobre mulher. Chega um desconhecido, que observa atentamente o apetite de Macário.

O jovem diz que já viu esse desconhecido duas vezes. O desconhecido oferece vinho a Macário, que aceita com o maior prazer. O estranho diz que já encontrara três vezes com Macário, sendo que uma vez o moço contemplava romanticamente a natureza, daí pergunta-lhe se ele era poeta. Macário responde de maneira anti-romântica, alegando que sua mula estava cansada. Nisso, uma voz avisa que o burro de Macário fugira com a mala. O jovem lamenta a perda de seu cachimbo. Mas o desconhecido lhe oferece um cachimbo especial. Na conversa, Macário diz quem ele é: um estudante, filho de pais desconhecidos, um enjeitado que ama as mulheres, mas tem ódio do romantismo. Falam sobre poesia e Macário critica a vulgaridade da poesia que era produzida em sua época. Em relação à beleza do mar, Macário fala do enjôo que as ondas provocam. Ao conversarem sobre as mulheres, o moço mostra seu desencanto, confessando que nunca tivera um verdadeiro amor. Para ele, a mulher ideal teria de ter virgindade, beleza e inocência. Mas Macário só procura esse tipo de mulher entre as prostitutas. É contraditório, pois no mesmo tempo em que diz esperar achar um anjo entre as perdidas, afirma também que não admite beber o melhor vinho numa xícara de barro. O desconhecido finalmente revela quem é: nada menos que o diabo. Macário não se espanta, pois há dez anos procura por Satã, e afirma que a melhor desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles [alusão a personagens do drama Fausto, de Göethe]. Macário parte na garupa de Satã. Muda-se o cenário. Eles estão agora num caminho. Satã, bastante irônico, diz que seu burro é descendente do animal que conduziu a sagrada família. Os dois estão indo para São Paulo. Satã faz uma verdadeira crítica à cidade, ironizando sua população de estudantes vadios, mulheres com maus dentes e lascivas, como também suas ruas esburacadas. A casa de Satã é na entrada da cidade, defronte ao cemitério.

Sob o luar, os dois continuam conversando. Satã fala que tudo no mundo é vapor, inclusive o amor. Ambos são descrentes e irônicos em relação à vida. Conversam sobre a comédia do universo, o desconhecimento das coisas. Macário sempre cita personagens famosos da literatura universal: Fausto, Hamlet, Don Juan – seres atormentados pela busca da verdade. Para quebrar a forte carga de pessimismo daquela conversa, Satã fala da beleza de uma virgem nua. Depois, retomando a meada da descrença, o diabo narra uma história: havia amado uma prostituta e depois a mulher morrera. Amor e morte estão sempre unidos.

Por efeito das artes do diabo, Macário adormece em cima de um túmulo. Tem um terrível pesadelo: na escuridão, vê uma mulher muito pálida que abraçava e beijava cadáveres. Satã o acorda. Macário escuta gemidos, Satã diz que é a sua mãe, agonizando. Horrorizado, Macário o expulsa.

O cenário é novamente uma estalagem de estrada. Macário acorda: tudo fora um sonho… mas a mulher vê uma marca de queimado no chão: um pé de cabra, a pegada do diabo! Tudo fora um sonho?

Segundo episódio

O cenário é a Itália [um vale, montanhas, um rio, uma mulher acalentando um homem em seu colo]. Macário, pensando na morte, encontra a mulher com o homem adormecido em seu colo. Macário é arrogante, e chama a mulher de Messalina de cabelos brancos, insinuando sua luxúria em relação ao rapaz adormecido. Mas depois verifica que o rapaz estava morto, havia se afogado no rio. A mulher é uma louca, mas pelo menos sua loucura a faz feliz, pois ela acreditava na vida do filho. Macário encontra um novo figurante: é Penseroso, que cisma sobre o amor. Macário fala em morrer, Penseroso fala sobre o amor. Macário afirma ter vindo de uma noite de amor: estava embriagado de gozo, mas agora quer morrer. Conversam sobre mulheres e sobre música. Macário está muito fraco. Chega Satã, que mostra certa inclinação homossexual em relação ao jovem Macário. Satã leva o rapaz, que acorda entediado, aborrecido com o diabo. Satã conta uma nova história, em que uma virgem conseguiu evitar a sedução de um rapaz que lhe escrevera. Macário acaba adormecendo com a história do diabo. Mais tarde, Macário torna a conversar com Penseroso. Este, agora, está magoado, sofrendo o mal do amor. Macário o chama para uma orgia.

Numa sala, repleta de livros, Penseroso fala sobre um livro que Macário lhe dera. Um livro descrente, lúgubre. Criticando o ceticismo, Penseroso fala no progresso. Macário descrê de tudo, inclusive da própria arte. Critica a poesia da época [plágio, cópia, garatuja]. Como sempre, a conversa volta a ser sobre o amor, a mulher… Penseroso sofre. Seguem-se páginas do seu diário íntimo: queixas de amor.

Em uma rua, Penseroso encontra com o Doutor Lárius. Penseroso tomou veneno. Por isso, o médico o vê tão pálido.

Em uma sala, Penseroso encontra com a Italiana, sua amada. Italiana diz quer o ama, que será sua, mas Penseroso não acredita. Já tomou veneno. É masoquista: prefere morrer romanticamente de amor a viver e amar.

Em seu quarto, Penseroso agoniza, clamando: ela não me ama. Chega Humberto, um dos amigos,, que nada mais pode fazer. Outros amigos estão ausentes: Davi está na caça e Macário está bêbado.

Na porta de uma taverna, Macário está junto com Satã. O jovem quer fugir, mas Satã diz que o seguirá, pois abrir a alma ao desespero é dá-la a Satã. O diabo afirma também que Macário ouvirá mais facilmente a sua voz partindo da própria carne.

Mais tarde, em uma rua, Macário e Satã estão de braços dados. Olham pela janela de uma taverna. Lá dentro há muito vinho, mulheres e orgia. Eles escutam.

Para baixar o livro, clique aqui.

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