“Vestido de noiva”, de Nelson Rodrigues Deixar um comentário

Em Vestido de noiva, Alaíde, a protagonista, ouve Pedro – seu marido – e Lúcia – sua irmã e rival – tramarem-lhe a morte. Sai desesperada para a rua, é atropelada e morre. Ainda que dê a Pedro e Lúcia a chance de sair da trama de mãos lavadas, por livrá-los de um assassinato, o acaso não poupa sua vítima, cujo destino trágico ela mesma traçou: Alaíde havia roubado o namorado de sua irmã e se casado com ele.

Logo depois do casamento, já começa sentir antipatia pelo marido, a quem não amava e com quem se casara simplesmente para tomá-lo da irmã, acirrando, assim, uma rivalidade que será o principal agente de sua própria tragédia.

Depois do casamento com Alaíde, Pedro reata sua relação com Lúcia, e os dois se tornam amantes. Juntos, passam a tramar a morte de Alaíde. O móvel da morte é, portanto, construído pela própria protagonista, seguindo a tônica das tragédias clássicas.

Vestido de noiva tem, neste sentido, componentes da tragédia, pois, como nesta espécie dramática, o homem está aqui também sujeito a um destino, que, por sua vez, é concebido como predestinação.

Mas trata-se de uma tragédia que não é a grega no sentido tradicional, já que os conflitos e as personagens se localizam no Rio de Janeiro; ademais, do ponto de vista estrutural, essa peça se constitui nos moldes de um drama, de acordo como espírito da modernidade.

A rivalidade entre irmãs, que disputam um mesmo homem; a repressão dos desejos; a fragilidade e falsidade das relações familiares, tais quais se apresentam na peça rodriguiana, apontam para uma crítica aos costumes burgueses que se aplica, por sua vez à comédia.

Como a dramaturgia moderna, mormente a de Nelson Rodrigues, não respeita as leis imutáveis das espécies dramáticas, a terminologia tragédia do cotidiano cabe bem, segundo o crítico Sábato Magaldi,  para definir grande parte da produção teatral do “anjo pornográfico”.

Trata-se de peças que, vistas panoramicamente, insistem no uso deliberado e, portanto, irônico dos clichês trágicos – fatalidade, destino, vingança, relações incestuosas, disputas familiares, assassinatos, a cegueira quanto ao saber sobre si mesmo. O autor, entretanto, utiliza-se do trágico, não como gênero, mas como ideia, atualizando esses clichês em fatos que compõem o cotidiano do homem moderno – o futebol, o casamento, as intrigas familiares, a vida de cada dia, “a vida como ela é”, segundo sua própria designação.

Foi ainda o próprio Nelson Rodrigues quem subdividiu o conjunto de suas peças dramáticas em drama, tragédia, tragédia carioca, farsa irresponsável, peça em dois atos, divina comédia, obsessão em três atos, rompendo, assim, com a divisão rígida dos gêneros e das espécies dramáticas. Vestido de noiva cabe na terminologia tragédia carioca, pela classificação de seu autor, cuja concepção mostra que teatro não é simplesmente representação ou imitação da vida: ele é em si mesmo, a encarnação da vida: “O teatro, é preciso jogá-lo de volta na vida. O que não significa que se deva botar a vida no teatro. Como se fosse possível imitar a vida. O que é preciso é reencontrar a vida no teatro, em toda a sua liberdade. Essa vida está inteiramente presente no texto dos grandes trágicos”.

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