“Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna Deixar um comentário

Auto da Compadecida é um texto dos mais instigantes [e intrigantes] da dramaturgia nacional. Tem suas ‘raízes’ em romances e histórias populares nordestinas, aproxima-se dos antigos autos vicentinos, do teatro espanhol do século XVII e também da commedia dell’arte. Acima de tudo, sua criatividade autoral não se limita a uma mera cópia, transposição ou adaptação. O que nos é dado a perceber é a recriação em termos brasileiros, tanto pela ambientação como pela estruturação, configurando-se como uma obra inédita em suas características, nova e, portanto, absolutamente original. 
 

Escrita em 1955 por Ariano Suassuna, um jovem paraibano que ainda não contava 30 anos, Auto da Compadecida está completando 53 anos, gozando de plena vitalidade. Até o lançamento da Compadecida, Ariano era conhecido basicamente no Recife, onde residia, como autor de poemas e peças teatrais populares desde 1945. Encenado pela primeira vez em 11 de setembro de 1956, no Teatro Santa Isabel, pelo Teatro de Adolescentes do Recife, sob a direção de Clênio Wanderley, numa curtíssima temporada de 3 apresentações, o Auto da Compadecida teve a última delas cancelada por falta de público. 

O herói do texto, João Grilo, é personagem lendário de dois romances [romances são os nomes dados aos textos de cordel] populares nordestinos intitulados As proezas de João Grilo. Essa aproximação com o popular não exclui as possibilidades de uma apropriação mais remota, se observarmos a semelhança com os antigos autos medievais [Os milagres de Nossa Senhora] em que, numa história profana, o herói invocava a Virgem e esta o salvava física e espiritualmente. Ou ainda com os autos vicentinos que, apresentados nos palácios [e também nos átrios das igrejas medievais], eram o recado crítico do povo, pela boca do artista, aos detentores do poder temporal – os endinheirados e nobres –, e do poder eterno, espiritual – os representantes de Deus na terra, o clero. Por outra linhagem, podemos entrever em João Grilo o Arlequim, com sua esperteza, sagacidade e astúcia que lhe permitem escapar das situações difíceis, mas sem deixar de ser histriônico, bufão em sua luta pela sobrevivência. A falta de sorte, as confusões em que se mete e acaba levando a pior, lembram as agruras de D. Quixote.

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