“Antologia”, de Gregório de Matos

Gregório de MatosA primeira constatação diante da poesia de Gregório de Matos é a de que ela apresenta faces de fronteiras móveis e contraditórias entre si, como o sagrado e o profano, o lírico e o pornográfico, o satírico e o laudatório. E essa pluralidade da poética gregoriana atesta sua identidade barroca.

O grande problema que se apresenta, de imediato, ao estudioso da obra de Gregório é o da autoria dos poemas. Os textos atribuídos ao poeta baiano são apógrafos, ou seja, não apresentam originais do próprio punho do autor. Decorrem dessa realidade duas versões que dividem os críticos. De um lado, a posição defendida por Wilson Martins, nos seguintes termos: “Sob o nome de Gregório de Matos podemos compreender sem maiores prejuízos nem excessivas hesitações, qualquer coisa como um poeta coletivo, uma espécie de constelação de poetas, em que os anônimos e desconhecidos se dissolvem na figura do epônimo – aquele que dá ou empresta o nome a alguma coisa – e nele se transubstanciam para formar esse grande e imaginário poeta brasileiro do século XVII: Gregório de Matos.”

A mesma posição é referendada por João Adolfo Hansen, para quem Gregório de Matos seria “uma etiqueta, uma unidade cambiante e imaginária”.

Do outro lado, o ponto de vista que João Carlos Teixeira Gomes formula com estas palavras parece-nos muito mais coerente: “Pelo menos por trás de expressiva parte da produção satírica que nos chegou sob o patrocínio do nome de Gregório de Matos há um poeta único, que se desvela na familiaridade de uma convivência textual prolongada, e que sugere ter colocado nos apógrafos numerosos sinais da sua existência como homem e de sua individualidade como poeta, falando com dicção própria, mesmo quando a sua voz parece dissolvida no coro das convenções barrocas”.

No conjunto da obra de Gregório, podemos distinguir duas situações: de um lado, os poemas – elaborados dentro da convenção culta e impessoal imposta pela tradição literária peninsular [Portugal e Espanha] – que refletem a integração harmoniosa do poeta com o status quo. Estão nesse caso os poemas líricos em geral – ausentes desta Antologia –, com seus recursos gongorizantes [influência do poeta espanhol Don Luís de Gôngora y Argote]. De outro lado, os poemas que traduzem o rompimento com a convenção e a abertura à realidade brasileira, nos quais se nota a presença do chiste, do palavrão e da expressão corriqueira, inclusive na sua feição erótica e mesmo obscena.

Gregório não foi somente o primeiro “jornal” que circulou na Colônia. Foi também a primeira “enciclopédia” de nossos costumes, folclore, o primeiro “dicionário indígena e africano”, o primeiro “manual de gíria” do Brasil-Colônia, conferindo uma dimensão tropical e americana ao barroco peninsular.

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