Introdução à semântica: brincando com a gramática, de Rodolfo Ilari

Introdução à semântica, de Rodolfo IlariEm Introdução à semântica: brincando com a gramática, o professor Rodolfo Ilari analisa vários mecanismos de produção de sentido em textos literários e informativos, a saber: posto, pressuposto, modalização, focalização, aspectos verbais, entre outros.

 

Na apresentação do livro, o professor João Wanderley Geraldi afirma: Colecionando vasto material lingüístico – recortes de jornais, piadas, exemplos e exercícios com situações reais ou imaginadas – “fiel aos seus problemas favoritos”, o autor vai permitindo ao leitor encontrar na materialidade da linguagem em uso “diversos pontos de paradas” em que o processamento dos sentidos pode deslizar para a incompreensão, ou, em outras palavras, fazendo perceber os sentidos outros a que não damos importância, mas que estão no dito ou no dizer como virtualidades, sempre capazes de se projetarem sobre a interlocução em curso, produzindo, no mínimo, sentidos disparatados.

 

É por isso que este é um livro que permite refletir sobre a linguagem, propondo práticas que se sustentam sobretudo nas capacidades intuitivas dos falantes que, orientados pela reflexão proposta, reconhecem na linguagem suas possibilidades de significar e, ao mesmo tempo, aprendem sobre a linguagem em função das rubricas sob as quais os fenômenos são agrupados. Nesse sentido, este não é um livro que ensina um conjunto de conceitos com os quais falar sobre a linguagem, mas um livro que ensina a refletir sobre os recursos lingüísticos em seu funcionamento para extrair da reflexão um conhecimento sobre a linguagem. Cada tema é tratado a partir de um objetivo explicitamente exposto, a questão sumariamente caracterizada, sem qualquer pedantismo acadêmico ou pretensão de especialista. Mas o que singulariza este livro é o conjunto de reflexões que o autor faz e leva a fazer sobre os recursos lingüísticos. É, portanto, um livro sobre “práticas de análises lingüísticas” organizadas e sistematizadas a partir de um ponto de vista particular, aquele de que se apreende sobre a língua à medida que sobre ela se reflete.

 

Por que trabalhar com a compreensão textual? Quem nos responde a esta pergunta é o próprio Rodolfo Ilari, na “Introdução” seu livro: Uma das características que empobrecem o ensino médio da língua materna é a pouca atenção reservada ao estudo da significação. O tempo dedicado a esse tema é insignificante, comparado àquele que se gasta com “problemas” como a ortografia, a acentuação, a assimilação de regras gramaticais de concordância e regência, e tantos outros, que deveriam dar aos alunos um verniz de “usuário culto da língua”. Esse descompasso é problemático quando se pensa na importância que as questões da significação têm, desde sempre, para a vida de todos os dias, e no peso que lhe atribuem hoje, com razão, em alguns instrumentos de avaliação importantes, tais como o Exame Nacional do Ensino Médio, os vestibulares que exigem interpretação de textos e o Exame Nacional de Cursos.

 

Alguns leitores dirão que o sentido está sempre presente quando se lê e se redige, e que nosso ensino pratica a leitura, a interpretação e a produção de textos. Mesmo assim, fico preocupado. Em primeiro lugar, porque há diferentes maneiras de trabalhar com o texto, e algumas das que prevalecem na prática pouco têm a ver com interpretação (pense-se no tipo de correção de redações mais usado, que consiste em assinalar apenas os “erros” de ortografia, concordância e regência); em segundo lugar porque o trabalho sobre textos, tal como vem sendo praticado, dá mais atenção à interpretação a que se chega, do que ao enorme repertório de conhecimentos e à variedade dos processos que mobilizamos ao interpretar; e, finalmente porque o nosso ensino foi se reduzindo, de fato, a um conjunto muito limitado de atividades, em prejuízo de outras possíveis que não são sequer lembradas.

 

Ao contrário do que acontece com a “gramática”, simplesmente não existe em nosso ensino a tradição de tratar do sentido através de exercícios específicos, e isso leva o professor da escola média a acreditar que, nessa área, não há nada de interessante a fazer.