A farsa e os farsantes, de Carlos Heitor Cony

É na hora de levantar da mesa que a garota sente a dor. Morde os beiços, solta o grito:

 

– Papai!

 

O pai penteia a menor que vai ao colégio. Cabelos revoltos, cabeça mais revolta ainda, é um drama manter aqueles fiapos arrumados em cima do pequenino crânio que ele tanto ama.

 

– Que foi?

 

E antes de qualquer resposta, abre os braços para receber a filha que vem caindo, aos pedaços, o rosto vermelho, duas lágrimas súbitas correndo, pelas gordas bochechas:

 

– Minha perna!

 

Recebe a filha nos braços, tenta forçá-la a andar, mas o corpo dela cai para o lado, a perna parece endurecida, como se fizesse parte de um outro organismo. Então apela para a força e levanta-a nos braços, já há muito não a segura assim, desde que começara a ficar mocinha. No trajeto da sala para o quarto lembra noites antigas, em que a menina acordava e pedia colo, ele ficava a noite inteira com o pequenino corpo nos braços, andando pelo escuro com sua preciosa carga feita de amor, medo e duas mãozinhas que o agarravam quando tentava deitá-la outra vez na cama.

 

Agora, o corpo cresceu, pesa em seus braços, mas a fragilidade da menina é a mesma.

 

A menor fica pelos cantos, a cara amarrada, rosnando. Numa pausa, enquanto procura a pomada para fazer a fricção doméstica, vê a menor tirando o uniforme.

 

– Quê que é isso? Você não vai ao colégio?

 

A resposta é negativa. Se a outra não vai, ela também não vai. O pai argumenta com a dor, a pomada cor de iodo que começa a esfregar pelos joelhos da outra, mas a menor é sábia e vil quando insinua:

 

– Isso é embromação, papai! Ela não tem nada!

 

A vontade primeira é esfregar pomada no nariz dela. Nunca a mais velha fingiria a esse ponto. Espinafra a menor, cita exemplos antigos e convincentes, apanha a merendeira e a pasta, empurra-a pelo elevador e quase se esquece de recomendar à empregada para desculpar a falta da outra.

 

E a outra faz o seu papel de dor e impotência. As lágrimas secam, mas a perna ainda dói – e ele descobre um vermelhão perto dos joelhos e teme. Olha uma velha imagem de Santa Luzia que a mãe lhe havia dado, pensa mecanicamente em rezar, pedir proteção para aquele joelho, mas assim também não, é covardia demais, e prefere telefonar para o médico.

 

Quando acaba de discar, e antes de o médico atender, a filha já se levantara e correra ao telefone para cortar a ligação.

 

– Não precisa não, papai, eu já estou boa!

 

– O quê?

 

E novo pranto, desta vez mais sincero: aos soluços, a verdade é dita:

 

– Eu não sabia nada para a prova, papai!

 

Alisa os cabelos da filha, feliz já, de não ser nada. E a certeza de que a filha não tivera nada lhe dá súbita e incontrolada ternura. Beija-a avidamente, reencontrado em sua rotina e sossego.

 

– E agora?

 

Agora, é tratar de passar a tarde juntos, como há muito tempo não passavam. Desencavam velhas revistas, deitam-se na cama e ficam vendo figuras, depois jogam uma partida de batalha naval, A6, F7, D8 água.

 

Acerta uma parte do cruzador. Água. Ela ganha por dois submarinos e um pedaço de avião.

 

– Vamos fazer banana frita?

 

Enxotam as duas empregadas da cozinha e fazem, eles mesmos, a banana frita, e comem com avidez e grandes goles de guaraná. Até que, de repente, quando maior é a comilança, ouvem o barulho do elevador que para no andar.

 

– É ela!

 

Pelo jeito furioso de bater a campainha, é mesmo a menor que volta do colégio. Então, pai e filha olham-se nos olhos e correm para o quarto. Quando a outra chega, encontra a irmã gemendo sobre a cama, e o pai, apreensivo e corrupto, abaixando o termômetro com grandes solavancos, para ver se a febre já tinha passado.

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