“O navio negreiro”, Castro Alves

Castro Alves foi o principal e mais popular representante do estilo romântico que predominou na poesia brasileira entre 1850 e 1870, denominado condoreiro por Capistrano de Abreu. Seu estilo é caracterizado por uma poesia retórica, repleta de hipérboles e antíteses, em que se destacam os temas sociais e políticos, principalmente a defesa da abolição da escravatura e a apologia da república.

Os poetas condoreiros foram influenciados diretamente pela poesia social de Vitor Hugo – o Condoreirismo é o hugoanismo brasileiro. De teor declamativo e pendor social, um de seus símbolos mais frequentes é a imagem do condor dos Andes, pássaro que representa a liberdade da América, o que sugeriu a Capistrano de Abreu a denominação dada ao estilo.

Castro Alves, o maior representante da última geração romântica, diferente dos seus predecessores, como Junqueira Freire e Álvares de Azevedo, projeta o drama interior do escritor (o eu), sua intensa contradição psicológica, sobre o mundo. Enquanto que, para a geração anterior, o conflito faz o escritor voltar-se sobre si mesmo, pois a desarmonia é resultado das lutas internas, para Castro Alves, são as lutas externas (do homem contra a sociedade, do oprimido contra o opressor) que provocam essa desarmonia. É outro modo de representar o conflito entre o bem e o mal, tão prezado pelos românticos. Portanto, a poética deve se identificar profundamente com o ritmo da vida social e expressar o processo de busca da humanidade por redenção, justiça e liberdade. O poeta “condoreiro” tem um papel messiânico e afinado com o seu momento histórico. Esse comprometimento faz a poesia se aproximar do discurso, incorporando a ênfase oratória e a eloquência.

Nos poemas de caráter político-social de Castro Alves, como “O Livro e a América”, “Ode ao Dous de Julho” e “O navio negreiro”, a poesia é suplantada pelo discurso político grandiloquente e até verborrágico. Para atingir o alvo e persuadir o leitor e, muito mais, o ouvinte, o poeta abusa de antíteses e hipérboles e apresenta uma sucessão vertiniginosa de metáforas que procuram traduzir a mesma idéia.

“O navio negreiro” é, sem dúvida, o poema mais conhecido de Castro Alves. Trata-se de um texto em que se defende o fim do tráfico negreiro.

A poesia deste escritor baiano foi escrita para ser lida em voz alta. Por isso, é fácil perceber a grande incidência de hipérboles, paradoxos e recursos expressivos que visam a criar “paisagens de palavras” em sua obra. Atente-se para o fato de que o ato de criação do texto pressupunha que o poema seria declamado a uma platéia.

Nota-se um forte caráter descritivo-narrativo na primeira, terceira e quarta partes do poema, em que o locutor nos apresenta o navio negreiro atravessando o Oceano e, ainda, terríveis cenas que buscam traduzir as atrocidades por que passavam os negros quando transportados da África para a América.

Nas palavras do crítico Luiz Dantas, percebe-se, em “O navio negreiro”, um violento contraste entre o orgulho da vitória conquistada na Guerra do Paraguai [Estandarte que a luz do sol encerra,/ E as promessas divinas da esperança…/ Tu, que da liberdade após a guerra,/ Foste hasteado dos heróis na lança,/ Antes te houvessem roto na batalha,/ Que servires a um povo de mortalha] e as injustiças da escravidão. Ante tamanha disparidade, o sujeito poético acaba por duvidar dessa bandeira que dissimula “tanta infâmia e cobardia”: Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,/ Que impudente na gávea tripudia?!…/ Silêncio… Musa! Chora, chora tanto/ Que o pavilhão se lave no teu pranto

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