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Infância, de Graciliano Ramos
Os 39 capítulos de Infância abordam a vida do autor até os 12 anos de idade, o que atesta seu caráter autobiográfico.
Na obra, é possível entrever uma ausência de complacência para com todos, inclusivo do narrador consigo mesmo [o narrador aparece caracterizado como um menino troncho e esquisito] e com seus pais [aparecem, no romance, como agentes repressores].
Do ponto de vista estrutural, Infância – assim como Vidas secas – apresenta capítulos que podem ser lidos de forma independente, apesar de o livro apresentar unidade temática e formal.
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Essa negra Fulô, Jorge de Lima
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no banguê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!
Essa negra Fulô!
“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco”.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou”.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!
Graciliano Ramos e a Segunda Geração do Modernismo
Já em seu romance de estréia, Caetés, de 1933, percebem-se as duas diretrizes principais da obra de Ramos: a preocupação social e a angústia existencial. Com São Bernardo, não é diferente. Nesta obra, há um aprofundamento dessas duas vertentes. O trabalho artístico, entretanto, alcança aqui um nível mais elaborado, o que levou vários críticos a classificarem o romance em questão como uma obra à parte na literatura, na medida em que neste livro encontra-se um grau de estranheza que o torna quase ímpar na literatura brasileira.
A Primeira Geração do Modernismo Brasileiro [1922-1930] renovou os mecanismos de expressão de nossa literatura. Graciliano Ramos, que começa a publicar na década de 1930 – estando, portanto, ligado ao segundo momento do modernismo –, não comunga de tal “renovação”.
Pode-se dizer que sua narrativa é bastante tradicional, na medida em que nela não se notam rupturas verbais, tampouco malabarismos lingüísticos. Sua obra se preocupa mais com a denúncia de situações de opressão vivenciadas pelo homem nordestino.
O romance praticado pelos escritores da Segunda Geração do Modernismo Brasileiro apresenta duas grandes vertentes – uma social e outra psicológica. Tradicionalmente, os manuais de literatura classificam a obra de Graciliano como “social” [ou regional, ou nordestina]. São Bernardo apresenta todos os elementos do dito romance regional [social], mas também desenvolve magistralmente o que se convencionou chamar de “tensão interiorizada” [ou romance psicológico].
Outra classificação utilizada para a obra de Graciliano é a de “neo-realista”. Esse termo pode ser utilizado sem prejuízo algum porque ela retoma procedimentos bastante utilizados pelo realismo-naturalismo, tais como a denúncia social, a análise psicológica e uma forte tendência à objetividade.



