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Textos com Etiquetas ‘Modernismo: quarta geração’

Feliz ano novo, Rubem Fonseca

16, novembro, 2008 Sem comentários

Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.

 

Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.

 

Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.

 

Vai mijar noutro lugar, tô sem água.

 

Pereba saiu e foi mijar na escada.

 

Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.

 

Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?

 

Tô morrendo de fome, disse Pereba.

 

De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.

 

Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.

 

Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.

 

Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.

 

As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?

 

Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.

 

Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.

 

Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.

 

Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?

 

Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.

 

Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.

 

No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.

 

As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.

 

Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.

 

Ela tava nua, disse Pereba.

 

Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.

 

Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.

 

Brincadeira, eu disse. Afinal, eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.

 

Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago – pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.

 

Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.

 

Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.

 

Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.

 

Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.

 

As ferramentas dele tão todas aqui.

 

Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.

 

Eu ri.

 

Quais são os ferros que você tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de cano serrado, e duas magnum.

 

Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?

 

Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.

 

Fumamos. Esvaziamos uma pitu.

 

Posso ver o material?, disse Zequinha.

 

Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.

 

Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.

 

O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.

 

Já, eu disse, está lá em cima.

 

A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.

 

Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.

 

É antiga mas não falha, eu disse.

 

Zequinha pegou a magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.

 

Botamos tudo em cima da mesa e ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.

 

Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.

 

Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.

 

Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.

 

É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.

 

É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.

 

Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.

 

Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.

 

Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?

 

Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.

 

Cara importante faz o que quer, eu disse.

 

É verdade, disse Zequinha.

 

Ficamos calados, fumando.

 

Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.

 

O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?

 

Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.

 

Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.

 

O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.

 

Que casa? Você tem alguma em vista?

 

Não, mas tá cheio de casa de rico por aí.

 

A gente puxa um carro e sai procurando.

 

Coloquei a lata de goiabada numa saca ele feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.

 

Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.

 

Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.

 

É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!

 

Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.

 

Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.

 

Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.

 

Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.

 

Crianças?

 

Estão em Cabo Frio, com os tios.

 

Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.

 

Gonçalves?, disse Pereba.

 

É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.

 

Inocêncio, amarra os barbados.

 

Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.

 

Revistamos os sujeitos. Muito pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques. Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.

 

Pereba desceu as escadas sozinho.

 

Cadê as mulheres?, eu disse.

 

Engrossaram e eu tive que botar respeito.

 

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. F

oi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.

 

Vamos comer, eu disse, botando a fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que se mexer eu estouro os miolos.

 

Então, de repente, um deles disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.

 

Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.

 

Podem também comer e beber à vontade, ele disse.

 

Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.

 

Como é seu nome?

 

Maurício, ele disse.

 

Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?

 

Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.

 

Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo. Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.

 

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.

 

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

 

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

 

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.

 

Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.

 

Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.

 

Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha. Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.

 

Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.

 

Eu não disse? Zequinha esfregou ó ombro dolorido. Esse canhão é foda.

 

Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.

 

Não estou a fim. Tenho nojo

 

dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.

 

E você… Inocêncio?

 

Acho que vou papar aquela moreninha.

 

A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.

 

Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.

 

Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.

 

Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.

 

Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.

 

Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.

 

Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?

 

Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.

 

Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.

 

Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.

 

Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.

 

Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo.

O homem cuja orelha cresceu, Ignácio Loyola Brandão

16, novembro, 2008 Sem comentários

Estava escrevendo, sentiu a orelha pesada. Pensou que fosse cansaço, eram 11 da noite, estava fazendo hora-extra. Escriturário de uma firma de tecidos, solteiro, 35 anos, ganhava pouco, reforçava com extras. Mas o peso foi aumentando e ele percebeu que as orelhas cresciam. Apavorado, passou a mão. Deviam ter uns dez centímetros. Eram moles, como de cachorro. Correu ao banheiro. As orelhas estavam na altura do ombro e continuavam crescendo. Ficou só olhando. Elas cresciam, chegavam a cintura. Finas, compridas, como fitas de carne, enrugadas. Procurou uma tesoura, ia cortar a orelha, não importava que doesse. Mas não encontrou, as gavetas das moças estavam fechadas. O armário de material também. O melhor era correr para a pensão, se fechar, antes que não pudesse mais andar na rua. Se tivesse um amigo, ou namorada, iria mostrar o que estava acontecendo. Mas o escriturário não conhecia ninguém a não ser os colegas de escritório. Colegas, não amigos. Ele abriu a camisa, enfiou as orelhas para dentro. Enrolou uma toalha na cabeça, como se estivesse machucado.

 

Quando chegou na pensão, a orelha saia pela perna da calça. O escriturário tirou a roupa. Deitou-se, louco para dormir e esquecer. E se fosse ao médico? Um otorrinolaringologista. A esta hora da noite? Olhava o forro branco. Incapaz de pensar, dormiu de desespero.

 

Ao acordar, viu aos pés da cama o monte de uns trinta centímetros de altura. A orelha crescera e se enrolara como cobra. Tentou se levantar. Difícil. Precisava segurar as orelhas enroladas. Pesavam. Ficou na cama. E sentia a orelha crescendo, com uma cosquinha. O sangue correndo para lá, os nervos, músculos, a pele se formando, rápido. Às quatro da tarde, toda a cama tinha sido tomada pela orelha. O escriturário sentia fome, sede. Às dez da noite, sua barriga roncava. A orelha tinha caído para fora da cama. Dormiu.

 

Acordou no meio da noite com o barulhinho da orelha crescendo. Dormiu de novo e quando acordou na manhã seguinte, o quarto se enchera com a orelha. Ela estava em cima do guarda-roupa, embaixo da cama, na pia. E forçava a porta. Ao meio-dia, a orelha derrubou a porta, saiu pelo corredor. Duas horas mais tarde, encheu o corredor. Inundou a casa. Os hospedes fugiram para a rua. Chamaram a polícia, o corpo de bombeiros. A orelha saiu para o quintal. Para a rua.

 

Vieram os açougueiros com facas, machados, serrotes. Os açougueiros trabalharam o dia inteiro cortando e amontoando. O prefeito mandou dar a carne aos pobres. Vieram os favelados, as organizações de assistência social, irmandades religiosas, donos de restaurantes, vendedores de churrasquinho na porta do estádio, donas-de-casa. Vinham com cestas, carrinhos, carroças, camionetas. Toda a população apanhou carne de orelha. Apareceu um administrador, trouxe sacos de plástico, higiênicos, organizou filas, fez uma distribuição racional.

 

E quando todos tinham levado carne para aquele dia e para os outros, começaram a estocar. Encheram silos, frigoríficos, geladeiras. Quando não havia mais onde estocar a carne de orelha, chamaram outras cidades. Vieram novos açougueiros. E a orelha crescia, era cortada e crescia, e os açougueiros trabalhavam. E vinham outros açougueiros. E os outros se cansavam. E a cidade não suportava mais carne de orelha. O povo pediu uma providência ao prefeito. E o prefeito ao governador. E o governador ao presidente.

E quando não havia solução, um menino, diante da rua cheia de carne de orelha, disse a um policial: “Por que o senhor não mata o dono da orelha?”

Uma vela para Dario, Dalton Trevisan

16, novembro, 2008 Sem comentários

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

 

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

 

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

 

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

 

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

 

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

 

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

 

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados — com vários objetos — de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

 

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

 

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo – só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

 

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

 

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

 

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

 

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

Mistério e fragilidade, Carlos Heitor Cony

9, novembro, 2008 2 comentários

E na segunda-feira começa o mistério. A casa não tem por onde: nem reposteiros nem mordomos – coisas que propiciam suspenses e mistérios. É amplo o apartamento, sem escuros, sem ângulos mortos, sem portas falsas, sem cadáveres emparedados. Mesmo assim, o mistério começa pelo meu guarda-roupa: vou procurar o blusão de estimação, velho blusão por sinal, desfiado já de tanto uso e suor, e encontro a gaveta revirada, outros blusões amassados e – o mais importante – nenhum vestígio blusão predileto.

 

Não estou em trajes decentes para invadir o corredor e clamar pelo blusão. Tenho de me vestir de paciência e calças. Mas em vestindo as calças, procuro pela carteira e encontro-a em outro canto. Dentro de uma gaveta onde nunca me passou guardar o dinheiro.

 

Inocentemente, não percebo ainda que tramam contra mim. Mas, súbito, vem a suspeita: abro a carteira, conto o dinheiro. Nunca sei a quantas ando, mas tenho vaga idéia de estar eventualmente abonado. Os dedos aflitos correm pelas notas cor de abóbora, uma, duas, três, quatro, e logo a cara hostil do Deodoro da Fonseca numa nota de vinte avisa-me que acabavam as de mil, mas sabia que tinha sido roubado.

 

Grito pelas empregadas. A cozinheira chora, a arrumadeira ameaça despedir-se, o bode está definitivamente e irremediavelmente armado. E o mistério não pára.

 

Mais tarde, atendo a enigmático telefonema que me sonda a antropometria:

 

– É com o senhor mesmo que desejo falar. Qual é o seu colarinho?

 

– O quê?

 

– Colarinho.

 

Avanço o número, mas o camarada me pergunta se sou sólido ou frágil, quantos quilos peso, meu tamanho da cabeça aos pés.

 

– O senhor é papa-defuntos?

 

– Não. Não sou papa-defuntos. Papo os vivos mesmo.

 

E desliga.

 

Aterrado, sondo as esquinas durante a tarde, à espera da punhalada fatal que está a caminho. Alguém me roubou a roupa e o dinheiro, alguém já providenciou um organismo para substituir o meu, tudo está pronto, só falta o principal: o meu cadáver.

 

No dia seguinte, vou catar uns livros no recanto mais sagrado do escritório e dou com um embrulho todo enfeitado. Pode ser uma bomba ou uma serpente, mas também é péssimo gosto embrulhar bomba ou ofídios em papel da Casa Otto. Arrisco o dedo e sinto o macio do linho lá dentro.

 

Então vou pedir desculpas à empregada, prometo aumentos no ordenado, sou vil no arrependimento. E espero pelas duas meninas que tramaram aquilo tudo. Chegam da escola com a cara de sempre, as bochechas suadas, e vendo as bochechas suadas perco a vontade de um interrogatório severo. Opto pelas insinuações.

 

– Sabe que deu ladrão aqui em casa? Roubaram dinheiro do papai.

 

Dando provas de excelente mau caráter, as duas estão preocupadas em mudar o uniforme, chegam a cantarolar “Let’s twist again” numa comovente prova de insensibilidade pelo paterno drama.

 

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Bem, amanhã é Dia dos Pais. Acordarei com as duas meninas em cima de mim e terei de revidar o mau caráter delas com o meu mau caráter, e fingir. Fingir surpresa diante do embrulho. Fingir espanto diante do blusão novo, igualzinho ao antigo de que tanto gostava. Fingir que não sei o preço. Mas isso não me custará muito.

 

Cruel será manter a cara enxuta, os olhos apenas sonolentos, ásperos, sem direito às lágrimas, e o peito encouraçado, sem pretexto para o soluço. E doloroso será abraçá-las sem poder revelar a fragilidade do adulto escuro e medonho em que me transformei. Essa fragilidade que escora o homem só é desnecessário a que estou me habituando e cuja fortaleza – única e imerecida – são dois pequeninos rostos que me beijam e me afagam, como somente as crianças afagam e consolam.

Apresentando “O pagador de promessas”, de Dias Gomes

29, julho, 2008 Sem comentários

Dividida em três atos – sendo os dois primeiros subdivididos em dois quadros cada um –, a peça O pagador de promessas estrutura-se de forma simples, apresentando unidade de ação, tempo e espaço e pouco explorando a psicologia das personagens. Seu enredo pode ser resumido da seguinte maneira: Zé-do-Burro e sua mulher Rosa vivem em uma pequena propriedade a sete léguas de Salvador. Um dia, Zé-do-Burro vai a um terreiro de candomblé a fim de fazer uma promessa a Iansan (Santa Bárbara) para que esta salvasse Nicolau, seu burro de estimação que havia sido atingido por um raio. Com o restabelecimento do animal, Zé-do-Burro põe-se a cumprir a promessa, primeiramente dividindo suas terras com os lavradores mais pobres do que ele, e depois caminhando rumo a Salvador, até onde deveria levar uma imensa cruz de madeira para colocá-la no altar da Igreja de Santa Bárbara. Esta segunda parte de sua promessa, no entanto, é impossibilitada pela resistência do padre Olavo que, ao saber o local onde Zé-do-Burro havia feito a promessa, não permite que ele entre na igreja com sua cruz. Após muitas discussões, Zé-do-Burro, ao tentar entrar à força na igreja, é morto. Por fim, é posto em cima da cruz e conduzido para dentro da igreja por alguns simpatizantes de sua causa.

 

Para baixar a peça, clique aqui.