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Textos com Etiquetas ‘Modernismo: quarta geração’

Além-alma (uma grama depois), de Paulo Leminski

26, março, 2009 Sem comentários

Meu coração lá de longe

faz sinal que quer voltar.

Já no peito trago em bronze:

NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.

Pra que me serve um negócio

que não cessa de bater?

Mais me parece um relógio

que acaba de enlouquecer.

Pra que é que eu quero

quem chora, se estou tão bem assim,

e o vazio que vai lá fora

cai macio dentro de mim?

Distraídos venceremos, de Paulo Leminski

26, março, 2009 Sem comentários

Distraídos venceremos, publicado em 1987, reúne poemas escritos entre 1983 e 1987, já alguns anos depois que o poeta viveu e assimilou as fases da Poesia Concreta, do Tropicalismo e da Poesia Marginal. A convergência com o concretismo, como pesquisou Fabrício Marques de Oliveira, pode ser avaliada no parentesco estético entre Leminski e Décio Pignatari, que observou que a vanguarda não deve ser imposta a ferro e fogo, mas a erro e jogo. A vanguarda não é revolução permanente, mas contribuição permanente. Para Leminski, a contribuição da Poesia Concreta foi fundamental, trouxe-lhe a consciência aguda da materialidade da linguagem, a palavra enquanto signo altamente significativo, tornando mais nova a informação poética. Segundo o referido movimento, a poesia não deve ficar apenas na trincheira da literatura, mas se vincular a outras artes, assumir o caráter intersemiótico. Para baixar o livro, clique aqui.

La vie en close, de Paulo Leminski

26, março, 2009 Sem comentários

Livro póstumo de Paulo Leminski, La vie en close [cujo título faz uma brincadeira com a canção "La vie en rose", que ficou famosa na voz de Edith Piaf] foi lançado em 1991, dois anos depois da morte do poeta curitibano. Para baixar o livro, clique aqui.


Pessoa, Arnaldo Antunes

5, março, 2009 2 comentários

Coisa que acaba. Troço que tem fim. Sujeito. Que não dura, que se extingue. Míngua. Negócio finito, que finda. Festa que termina. Coisa que passa, se apaga, fina. Pessoa. Troço que definha. Que será cinzas. Que o chão devora. Fogo que o vento assopra. Bolha que estoura. Sujeito. Líquido que evapora. Lixo que se joga fora. Coisa que não sobra, soçobra, vai embora. Que nada fixa. A foto amarela o filme queima embolora a memória falha o papel se rasga se perde não se repete. Pessoa. Pedaço de perda. Coisa que cessa, fenece, apodrece. Fome que se sacia. Negócio que some, que se consome. Sujeito. Água que o sol seca, que a terra bebe. Algo que morre, falece, desaparece. Cara, bicho, objeto. Nome que se esquece.

Rima petrosa 2, Haroldo de Campos

25, fevereiro, 2009 Sem comentários

1.

Não

da planta do pé

à palma

da mão

 

não

em cada

unha

em cada

artelho

do dedo

mínimo ao

dedão

 

não

da anca

da potranca

à curva do joelho

da cintura

ao tornozelo

do cotovelo

ao pulmão

 

2.

um não

de pedra

um não

de sola

um não

sem nenhum

senão

 

em cada fio

de cabelo

em cada

dente

em cada

pelo do

pente

do bico do

seio

ao monte de

vênus

da axila

à virilha

à ilharga

à barriga

da perna

do céu da

boca

à interna

rosa em

botão

 

3.

mas se de tamanho não

tão unânime um não tão

se dessa massa de nãos

como da massa de pão

fermentar um dia um sim

(por mínimo que seja

o seu reçar de cetim)

 

então nesse meu

brinquedo (sinistro)

de urso

nesse meu jogo

(triste)

de leão –

 

a contra-sim

a contra-senso

a contra-mim –

 

serei eu a

dizer não

 

4.

um não de sins

o meu não

de fel coado de mel

que para dizê-lo assim tão

no seu esforço de não

(como no rim uma pedra

que endureça de paixão)

será preciso queimar

a mão direita no gelo

ou na chapa do fogão

abrir o peito e morder

(como Aquiles quis fazer

ao rei grego Olho-de-Cão

como fez Madona Loba

ao trovador Cabestão)

esse músculo vermelho

coração que bate sim

encarniçado em seu não