
Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero
quem chora, se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
Distraídos venceremos, publicado em 1987, reúne poemas escritos entre 1983 e 1987, já alguns anos depois que o poeta viveu e assimilou as fases da Poesia Concreta, do Tropicalismo e da Poesia Marginal. A convergência com o concretismo, como pesquisou Fabrício Marques de Oliveira, pode ser avaliada no parentesco estético entre Leminski e Décio Pignatari, que observou que a vanguarda não deve ser imposta a ferro e fogo, mas a erro e jogo. A vanguarda não é revolução permanente, mas contribuição permanente. Para Leminski, a contribuição da Poesia Concreta foi fundamental, trouxe-lhe a consciência aguda da materialidade da linguagem, a palavra enquanto signo altamente significativo, tornando mais nova a informação poética. Segundo o referido movimento, a poesia não deve ficar apenas na trincheira da literatura, mas se vincular a outras artes, assumir o caráter intersemiótico. Para baixar o livro, clique aqui.
Livro póstumo de Paulo Leminski, La vie en close [cujo título faz uma brincadeira com a canção "La vie en rose", que ficou famosa na voz de Edith Piaf] foi lançado em 1991, dois anos depois da morte do poeta curitibano. Para baixar o livro, clique aqui.

1.
Não
da planta do pé
à palma
da mão
não
em cada
unha
em cada
artelho
do dedo
mínimo ao
dedão
não
da anca
da potranca
à curva do joelho
da cintura
ao tornozelo
do cotovelo
ao pulmão
2.
um não
de pedra
um não
de sola
um não
sem nenhum
senão
em cada fio
de cabelo
em cada
dente
em cada
pelo do
pente
do bico do
seio
ao monte de
vênus
da axila
à virilha
à ilharga
à barriga
da perna
do céu da
boca
à interna
rosa em
botão
3.
mas se de tamanho não
tão unânime um não tão
se dessa massa de nãos
como da massa de pão
fermentar um dia um sim
(por mínimo que seja
o seu reçar de cetim)
então nesse meu
brinquedo (sinistro)
de urso
nesse meu jogo
(triste)
de leão –
a contra-sim
a contra-senso
a contra-mim –
serei eu a
dizer não
4.
um não de sins
o meu não
de fel coado de mel
que para dizê-lo assim tão
no seu esforço de não
(como no rim uma pedra
que endureça de paixão)
será preciso queimar
a mão direita no gelo
ou na chapa do fogão
abrir o peito e morder
(como Aquiles quis fazer
ao rei grego Olho-de-Cão
como fez Madona Loba
ao trovador Cabestão)
esse músculo vermelho
coração que bate sim
encarniçado em seu não