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As três mulheres do sabonete Araxá, Manuel Bandeira

Manuel BandeiraAs três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam,

Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!

O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem

Para brutais vos adorarem,

Ó brancaranas azedas,

Mulatas cor de lua vem saindo cor de prata

Ou celestes africanas:

Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá!

São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?

São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?

São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.

Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava para beber e nunca mais telefonava.

Mas se a terceira morresse…Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!

Se me perguntasem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?

Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:

O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Desencanto, de Manuel Bandeira

7, fevereiro, 2008 Sem comentários

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Eu faço versos como quem chora

De desalento… de desencanto…

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

 

– Eu faço versos como quem morre.

 

O primeiro poema da coletânea é também o primeiro de A cinza das horas, de 1917, livro de estréia de Manuel Bandeira.

 

Apesar de ter sua obra associada à Primeira Geração do Modernismo Brasileiro [como atestam os também metalingüísticos e importantíssimos “Poética” e “Os sapos”], é no panorama Simbolista que Bandeira desponta.

 

Neste poema, isso fica claro através da opção pelo uso da quadra [na verdade, este poema, em A cinza das horas, tem estrutura diversa da apresentada na coletânea da Editora Ediouro: é formado por três quadras] e do verso eneassílabo, mas principalmente por intermédio da associação do ato poético a uma função expressiva da linguagem.

 

O ato poético insinua-se, aqui, com uma função catártica – de purgação, de extravasamento da subjetividade –, o que permite, ainda, associá-lo – na obra de Bandeira – a uma visão romântica, tradicional, popular, de poesia.

 

Em “Desencanto”, é possível perceber duas linhas temáticas importantíssimas na poética bandeiriana, a saber: a associação entre poesia e vida [de que vai resultar inúmeros poemas em que o lírico se funde ao biográfico tais como “Evocação do Recife” e “Pneumotórax”] e a poesia a serviço da expressão de enlevos eróticos e amorosos.


Manuel Bandeira e a primeira geração do modernismo brasileiro

27, janeiro, 2008 Sem comentários

Ao tentar situar a poética de Manuel Bandeira na produção literária e cultural do Brasil, o crítico Davi Arrigucci Júnior esboça, inicialmente, o retrato do poeta e focaliza, também os caminhos por ele trilhados. O procedimento do crítico não está destituído de razões.

 

Esquivando-se das velhas lições que ensinam a explicar a obra como um reflexo da vida, Arrigucci Jr. Lembra que o componente biográfico e social da experiência marcada pela morte constitui um fio narrativo importante e decisivo na configuração poética bandeiriana.

 

A escrita revela-se como um exercício, produto de ma longa e difícil aprendizagem, resultado de uma lenta formação humana e artística. Liga-se à memória da infância, ao imaginário da doença, à descoberta do corpo, do desejo e do amor, à pobreza do filho de família nordestina tradicional em decadência, à solidão do indivíduo ilhado em um quarto modesto, onde se resguarda para sobreviver, recolhendo no dia-a-dia a lembrança dos que se foram.

 

A motivos estritamente pessoais, somam-se razões de outra natureza, que dizem respeito ao grande convívio com as questões culturais do seu tempo. Leitor curioso e obsessivo, Bandeira acumulou um vasto conhecimento nos campos da Astronomia, Filosofia, História, Folclore, Mitologia, Psicologia, Religião, etc. Dedicou, porém, maior atenção às manifestações estéticas, sobretudo às Artes Plásticas, à Música e à Literatura.

 

No âmbito da produção literária, objeto específico de nosso interesse, Manuel Bandeira revelou-se um autor capaz de apropriar-se da tradição para instaurar a ruptura e inaugurar o novo, o moderno.

 

Herdeiro da tradição, soube como poucos resgatar do Medievalismo português o lirismo das cantigas, das baladas, dos rondós. Do apreço medieval pelo cristianismo, apreender a idéia de que os objetos humildes do cotidiano trazem consigo o sublime, do mesmo modo que os mais altos mistérios podem habitar as palavras mais singelas. Do realismo machadiano, tirou lições de humor, de ironias que ampliaram, sem dúvida, suas possibilidades de crítica. Bandeira soube responder, também, aos preceitos do Parnasianismo, atendendo as exigências do apuro formal, da precisão vocabular, consciente de que a palavra é o objeto maior da criação poética. Com o Simbolismo, conheceu a magia do inconsciente, o prazer advindo do devaneio, do sonho, o mundo encantado das palavras impregnadas de musicalidade.

 

Vale advertir, porém, que a poética bandeiriana não resultou de uma mera apropriação dos elementos estéticos tradicionais: ela recriou o que já fora anteriormente criado e, por tal motivo, é apontada por Haroldo de Campos como “desconstelizadora”. Explicando melhor a expresso, o crítico assinala que a obra de Bandeira ocupa o sutil espaço entre o lugar comum e o original, ela tem a propriedade de apresentar o novo a partir de uma simples mudança de ângulo, de enfoque, ou ainda, de contexto. Diante das palavras consteladas/consagradas pelo uso em um planetarium fixo de significações e associações o poeta se comporta como um operador rebelde que se insubordina contra as figuras sempre repetidas e, subitamente, oferece o inusitado, a surpresa, novas estrelas-palavras.

 

Recriar a tradição, oferecer o novo são feitos que não acontecem de forma mágica. Resultam de um incessante processo de leitura. Nasce da inquietude, da busca, da sensibilidade e, é claro, do convívio com as mais diversas tendências e manifestações artísticas.