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Apresentando “São Bernardo”, de Graciliano Ramos
Situado dentro da trilha do chamado “romance de 30”, São Bernardo se destaca por apresentar uma profunda análise dos seres humanos que habitam o nordeste brasileiro. Trata-se, sim, de um “romance regional”, e isso fica claro na observação dos aspectos paisagísticos, humanos e históricos, que situam os acontecimentos nos anos que antecedem a Revolução de 1930, aludida no romance, entretanto, a angústia existencial de Paulo Honório salta aos olhos do leitor que, surpreendentemente, se depara com a mais bem acabada análise da psicologia de segmentos da classe dirigente brasileira de fins do século XIX e início do século XX.
A narração dos acontecimentos que culminam na posse da Fazenda São Bernardo é cronometrada milimetricamente, o que presumidamente confere um caráter objetivo à história de Paulo.
A velocidade com que são narrados os fatos e a precisão temporal utilizada para apresentá-los fizeram com que o crítico João Lafetá, no belíssimo ensaio “O mundo à revelia”, classificasse o narrador-protagonista como um dínamo, um motor, um elemento a serviço da ação, do progresso e da modernização do nordeste: “Paulo Honório, representante da modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador.”
Paradoxalmente, depois da posse de São Bernardo, o ritmo da narrativa diminui, pois Paulo Honório está prestes a mudar de foco. Sua intenção, agora e providenciar um herdeiro para as terras de São Bernardo. Duas alternativas se delineiam: a filha do juiz, Dona Marcela, e uma certa professora loira, Madalena. Se aquela é descrita como sendo um bichão, uma peitaria, um pé-de-rabo, um toitiço, esta é apresentada carinhosamente miudinha, fraquinha, as mãozinhas cerradas, lindas mãos, linda cabeça.
Diante de Madalena, pela primeira vez Paulo Honório enxerga o outro e experimenta um sentimento que antes não conhecia, a paixão. Fixado o alvo, entretanto, a ação é fulminante. Paulo faz a proposta de casamento à jovem e, antes que ela pense muito, marca a data. Veja o comentário do professor Lafetá sobre a ação do nosso protagonista: “É de novo a ação decidida, o gesto oportuno, a rapidez e o conhecimento do instante propício que tornam Paulo Honório vitorioso.”
A sensação de vitória de Paulo Honório é passageira, pois, nos capítulos seguintes, assistimos à desagregação da estrutura de poder que dominou o Brasil durante toda a República Velha.
Segundo Lafetá, Madalena é o elemento desestruturador do aparente equilíbrio do mundo do narrador-protagonista: depois de casado, Paulo Honório vai, paulatinamente, conhecendo sua esposa e se espanta diante das atitudes tomadas por ela.
Madalena enxerga o outro como pessoa, por isso dá bom tratamento aos empregados e se preocupa com o bem-estar deles. Isso exaspera Paulo Honório porque, para ele, aquelas pessoas não passavam de peças da engrenagem de São Bernardo. Ao tratar o outro como coisa, bicho, Paulo Honório acaba por se transformar em uma peça da engrenagem que supõe comandar: “Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.”
Diferentemente dos outros moradores de São Bernardo, Madalena não se deixa ver como coisa a ser possuída. Ao se manter íntegra – negando-se a entrar no jogo de reificação do narrador-protagonista –, ela se torna um obstáculo a ser transposto pelo protagonista. De acordo com o professor Lafetá: “como Madalena se recusa a alienar-se, entrando no jogo de reificação, os choques são inevitáveis. A ação narrativa se concentrará, agora, em torno desse novo obstáculo que Paulo Honório terá que enfrentar. Um novo núcleo se abre, e os novos motivos que surgem se organizam em torno deste motivo central: a tentativa de Paulo Honório de reduzir Madalena a objeto possuído. Na medida em que a mulher escapa a seu controle, na medida em que ela é capaz de apiedar-se dos trabalhadores miseráveis que vivem na fazenda, na medida em que Madalena se afasta de seu universo de proprietário, portanto, à sua compreensão, Paulo Honório sente ciúmes.”
A solução do conflito, desfecho da narrativa, é a morte de Madalena, vitória da reificação e derrota de Paulo Honório. Derrota porque a partir da morte da sua esposa, o narrador-protagonista vê seu mundo desabar: “Agir, mandar, cultivar São Bernardo, nada disso terá mais sentido para ele. O mundo desgovernou-se, só lhe resta sentar e buscar, compondo a narrativa, o significado de tudo que lhe escapa.”
Morta Madalena, a desagregação do mundo de Paulo Honório é visível. Apatia, abandono, estagnação. O dínamo emperra: “Reacendem-se as antigas questões de limites, seu crédito é cortado, os preços dos produtos caem. São Bernardo transforma-se numa fazenda abandonada. Os amigos, que o frequentavam regularmente, são obrigados a afastar-se, e ele fica sozinho, com seus intermináveis passeios.”
Se, por um lado, termina a narrativa, por outro, percebemos que o protagonista inicia a busca por sua identidade, a busca dos verdadeiros e autênticos valores que deveriam reger as relações entre os homens. Por isso é que se pode afirmar que São Bernardo ultrapassa o estatuto do “romance regional” porque, no final das contas, problematiza a condição não só do nordestino ou do brasileiro, mas do homem de todos os lugares e de todas as épocas.
Ao final da narrativa, do mando e da força de Paulo Honório pouco resta, porque, se antes da morte de Madalena, ele se movia guiado pelo instinto de propriedade, agora ele percebe que nada que fizera possui sentido, que agira todo o tempo como um “bicho” à toa, pois tudo o que acumulara de nada lhe valia ante a perda das pessoas pelas quais tinha afeição e da única pessoa a quem amara.
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O relógio do hospital, de Graciliano Ramos
O médico, paciente como se falasse a uma criança, engana-me asseverando que permanecerei aqui duas semanas. Recebo a notícia com indiferença. Tenho a certeza de que viverei pouco, mas o pavor da morte já não existe. Olho o corpo magro estirado no colchão duro e parece-me que os ossos agudos, os músculos frouxos e reduzidos, não me pertencem.
Nenhum pudor. Alguém me estendeu uma coberta sobre a nudez.
Como é grande o calor, descobri-me, embora estivessem muitas pessoas na sala. E não me envergonhei quando a enfermeira me ensaboou e raspou os pêlos do ventre.
Ao deitar-me na padiola, deixei os chinelos junto da cama; ao voltar da sala de operações, não os vi.
O médico se dirige em linguagem técnica a uma mulher nova, e ela me examina friamente, como se eu fosse um pouco de substância inerte, diz que os meus sofrimentos vão ser grandes.
Por enquanto estou apenas atordoado. Aquela complicação, tinir de ferros, máscaras curvadas sobre a mesa, o cheiro dos desinfetantes, mãos enluvadas e rápidas, as minhas pernas imóveis, um traço na pele escura de iodo, nuvens de algodão, tudo me dança na cabeça. Não julguei que a incisão tivesse sido profunda. Uma reta na superfície. Considerava-me quase defunto, mas no começo da operação esta idéia foi substituída por lembranças da aula primária. Um aluno riscava figuras geométricas no quadro-negro.
Morto da barriga para baixo. O resto do corpo iria morrer também, no dia seguinte descansaria no mármore do necrotério, seria esquartejado, serrado.
Fechei os olhos, tentei sacudir a cabeça presa. Uma cara me perseguia, cara terrível que surgira pouco antes, na enfermaria dos indigentes. Eu ia na padiola, os serventes tinham parado junto a uma porta aberta – a grade alvacenta aparecera, feita de tiras de esparadrapo, e, por detrás da grade, manchas amarelas, um nariz purulento, o buraco negro de uma boca, buracos negros de órbitas vazias. Esse tabuleiro de xadrez não me deixava, era mais horrível que as visões ferozes do longo delírio.
O trabalho dos médicos iria prolongar-se, cacete, meses e meses, ou findaria vinte e quatro horas depois, no necrotério? Cortado em pedaços, uma salmoura esbranquiçada cheirando a formol, o atestado de óbito redigido à pressa, um cirurgião de mangas arregaçadas lavando as mãos, extraordinariamente distante de mim.
Agora espero os sofrimentos anunciados. Um gemido fanhoso de relógio fere-me os ouvidos e fica vibrando. Insensível, olho as pernas compridas, a dobra que entre elas se forma na coberta. Outras pancadas vaga rosas tremem, abafando os cochichos que fervilham na sala. Parece-me virem juntas à primeira: a meia hora decorrida perdeu-se.
Inércia, um vácuo enorme, o prognóstico da mulher nova ameaçando-me. Sono, fadiga, desejo de ficar só. Alguém se debruça na cama, encosta a orelha ao meu coração. Furam-me o braço, uma agulha procura lentamente a veia.
Escuridão, silêncio. Depois um instrumento de música a tocar, a sombra adelgaçando-se, telhados, árvores e igrejas esboçando-se à distância. Tenho a sensação de estar descendo e subindo, balançando-me como um brinquedo na extremidade de um cordel.
A dormência prolongada pouco a pouco se extingue. Os dedos dos pés mexem-se, em seguida os pés, as pernas – e enrosco-me como um verme. Uma angústia me assalta, a convicção de que me aleijaram. Esta idéia é tão viva que, apesar de terem voltado os movimentos, afasto a coberta, para certificar-me de que não me amputaram as pernas. Estão aqui, mas ainda meio entorpecidas, e é como se não fossem minhas.
As idas e vindas, as viagens para cima e para baixo, cansam-me demais, penso que uma delas será a última, que o cordel vai quebrar se, deixar-me eternamente parado.
Noite. A treva chega de repente, entra pelas janelas, vence a luz da lâmpada. Uma friagem doce. A chuva açoita as vidraças. Durmo uns minutos, acordo, adormeço novamente. Neste sono cheio de ruídos espaçados – rolar de automóveis, um canto de bêbado, lamentações dos outros doentes – avultam as pancadas fanhosas do relógio. Som arrastado, encatarroado e descontente, gorgolejo de sufocação. Nunca houve relógio que tocasse de semelhante maneira. Deve ser um mecanismo estragado, velho, friorento, com rodas gastas e desdentadas. Meu avô me repreendia numa fala assim lenta e aborrecida quando me ensinava na cartilha a soletração. Voz autoritária e nasal, costumada a arengar aos pretos da fazenda, em ordens ásperas que um pigarro interrompia. O relógio tem aquele pigarro de tabagista velho, parece que a corda se desconchavou e a máquina decrépita vai descansar.
Bem. Daqui a meia hora não ouvirei as notas roucas e trêmulas.
Vultos amarelos curvam-se sobre a cama, que sobe e desce, levantam-me, enrolam-me em pastas de algodão e ataduras, esforçam-se por salvar os restos deste outro maquinismo arruinado. Um líquido acre molha-me os beiços. Serventes e enfermeiros deslocam-se com movimentos vagarosos e sonâmbulos, a luz esmorece, dá aos rostos feições cadaverosas.
Impossível saber se é esta a primeira noite que passo aqui. Desejo pedir os meus chinelos, mas tenho preguiça, a voz sai-me flácida, incompreensível. E esqueci o nome dos chinelos. Apesar de saber que eles são inúteis, desgosta-me não conseguir pedi-Ias. Se estivessem ao pé da cama, sentir-me-ia próximo da realidade, as pessoas que me cercam não seriam espectrais e absurdas. Enfadam-me, quero que me deixem. Acontecendo isso, porém, julgar-me-ia abandonado, rebolar-me-ei com raiva, pensa rei na enfermeira dos indigentes, no homem que tinha uma grade de esparadrapos na cara.
Silêncio. Por que será que esta gente não fala e o relógio se aquietou? Uma idéia acabrunha-me. Se o relógio parou, com certeza o homem dos esparadrapos morreu. Isto é insuportável. Por que fui abrir os olhos diante da amaldiçoada porta? Um abalo na padiola, uma parada repentina – e a figura sinistra começara a aperrear-me, a boca desgovernada, as órbitas vazias negrejando por detrás da grade alvacenta. Por que se detiveram junto àquela porta? Dois passos aquém, dois passos além – e eu estaria livre da obsessão.
O relógio bate de novo. Tento contar as horas, mas isto é impossível.
Parece que ele tenciona encher a noite com a sua gemedeira irritante.
Doutor Queirós, principiando a falar, não acaba: é um palavreado infinito que nos enjoa, nos deixa embrutecidos, mudos, mastigando um sorriso besta de cumplicidade.
Felizmente o homem dos esparadrapos vive. Repito que ele vive e caio num marasmo agoniado. No silêncio as notas compridas enrolam se como cobras, estiram-se pela casa, invadem a sala, arrastam-se devagar nos cantos, sobem a cama onde me agito apavorado. Que fim levaram as pessoas que me cercavam? Agora só há bichos, formas rastejantes que se torcem com lentidão de lesmas. Arrepio-me, o som penetra-me no sangue, percorre-me as veias, gelado.
As vidraças, a chuva, os ruídos, sumiram-se. Há uma noite profunda, um céu pesado que chega até a beira da minha cama. As coisas pegajosas engrossam, vão enlaçar-me nos seus anéis. Tento esquivar-me ao abraço medonho, revolvo-me no colchão, grito.
Aparecem de novo as figuras atentas, lívidas. A beberagem acre umedece-me a língua seca, dura como língua de papagaio.
– Obrigado.
Puxo a coberta para o queixo, o frio diminui. Há um rio enorme, precipícios sem fundo – e seguro-me a ramos frágeis para não cair neles.
Ouço trovões imensos. Volto a ser criança, pergunto a mim mesmo, que seres misteriosos fazem semelhante barulho. Meus irmãos pequenos iam deitar-se com medo, minhas tias ajoelhavam-se diante do oratório, a chama das velas tremia, as contas dos rosários chocavam-se como bilros de almofadas, um sussurro de preces enchia o quarto dos santos.
Por que estão chiando aqui perto de mim? Estarão rezando? Não houve trovões. Nuvens brancas e altas correm por cima das árvores, das igrejas, do telhado da penitenciária. Olho os tipos que me rodeiam. Afastam-se, falam em voz baixa, presumo que me espiam desconfiados. Acham-me com certeza muito mal, pensam que vou morrer, procuram decifrar as palavras incoerentes que larguei no delírio. Envergonho-me. Terei dito segredos e inconveniências?
Desejo atraí-Ias, conversar, mostrar que sou um indivíduo razoável e as maluquices do sonho findaram. Mas a linguagem foge. Procuro chamá-las com um gesto, a mão tomba-me sobre o peito, uma fraqueza paralisa-me.
Certamente estou há dias entre a vida e a morte. Agora a febre diminuiu e os monstros que me perseguiam se desmancharam. As dores do ferimento são intoleráveis. Inclino-me para um lado e para outro, certifico-me de que não me trouxeram os chinelos, imagino que vou agüentar uma eternidade de martírios.
Gritos agudos de criança rasgam-me os ouvidos, como pregos.
Querem ver que a minha operação foi ontem e ficarei aqui amarra do semanas ou meses?
Uma balada corta-me o pensamento. Estremeço: parece que ela me chegou aos nervos através da ferida aberta, me entrou na carne como lâmina de navalha.
Aqueles soluços desenganados devem vir da enfermeira dos indigentes, talvez o homem dos esparadrapos esteja chorando. Com esforço, consigo encostar as palmas das mãos nas orelhas. Desejo ficar assim, mas a posição é incômoda, os braços fatigam-me, o choro escorrega-me entre os dedos. Se não fosse isto, distrair-me-ia vendo as árvores, o céu, os telhados, falaria aos enfermeiros e aos serventes.
Que desgraça estará sucedendo? Deixo cair os braços, os uivos lastimosos da criança recomeçam, as minhas dores crescem, dão-me a certeza de que os médicos atormentam um pequenino infeliz. Penso nos vagabundos miúdos que circulam nas ruas, pedindo e furtando, sujos, esfrangalhados, os ossos furando a pele, meio comidos pela verminose, as pernas tortas como paus de cangalhas. Talvez estejam consertando uma daquelas pernas.
Os gritos baixam, transformam-se num estertor.
– Por que bolem com aquela criança?
A enfermeira avizinha-se, espera que eu repita a pergunta. Aborreço me por não me haver feito compreender, viro-me com dificuldade e minutos depois ouço os passos da mulher, que se afasta nas pontas dos pés.
Fará somente vinte e quatro horas que me deixaram aqui derreado? Somo: vinte e quatro, quarenta e oito, setenta e duas. Talvez uns três dias. Isto, setenta e duas horas. Os chinelos desapareceram: ficarei provavelmente um mês, dois meses. Multiplico: sessenta dias, mil quatrocentos e quarenta horas. Fatigo-me, e a conta se complica, ora apresenta um resultado, ora outro. Convenço-me afinal de que são mil quatrocentos e quarenta horas. É bom que a ferida se agrave e me mate logo. Dois meses de tortura, um tubo de borracha atravessando-me as entranhas, visões pavorosas, os queixumes dos indigentes que se acabam junto ao homem dos esparadrapos. Duas mil oitocentas e oitenta vezes o relógio caduco de peças gastas rosnará, ameaçando-me com acontecimentos funestos. Sessenta dias de imobilidade, o pensamento a emaranhar-me em cipoais obscuros.
Os gritos da criança elevam-se, o calor aumenta, as árvores e os telhados aproximam-se.
Lá estão novamente as horas a pingar do corredor como de uma torneira, gotas pesadas escorrendo lentas.
Gargalhadas na rua, barulho de automóvel, o pregão de um vendedor ambulante. Talvez o automóvel seja do médico que me vem fazer o curativo. Não é, passou com um ronco de buzina. Agora o que há são rufos de tambor, vozes de comando.
O berro do vendedor ambulante caiu na sala de supetão e ficou rolando, misturado ao choro dos indigentes e ao rumor de ferros na autoclave.
– Porcaria, tudo uma porcaria.
Zango-me. Não me tratam, deixam-me acabar à míngua, apodrecer como um corpo morto. Silêncio demorado. Penso na criança e no homem que se esconde por detrás da máscara de esparadrapo.
– Como vai o menino?
A enfermeira responde-me que vai bem, mas certamente procura iludir-me. Há um cadáver miúdo perto daqui, vão despedaçá-lo na mesa do necrotério, os serventes levarão a roupa suja para a lavanderia. Um colchão pequeno dobrado na cama estreita.
As vozes de comando, os rufos, o pregão do vendedor ambulante o rumor dos ferros na autoclave, fazem-me falta. Convenço-me de que o silêncio é de mau agouro. Quando ele se quebrar, uma infelicidade surgirá de repente, não poderei livrar-me dela. O suor corre-me na cara. O primeiro som que vier anunciará desgraça, essa idéia desarrazoada não me larga. Reprimo um acesso de tosse, acredito que ele é indício de hemoptises abundantes.
Começo a perceber um toque-toque surdo, tropel de cavalo cansado. Naturalmente é o sangue batendo-me nos ouvidos. Um coração quase inútil finda a tarefa maçadora.
O cadáver pequeno vai ser transformado em peças anatômicas.
Toque-toque. Não é o sangue, é qualquer coisa que vem de fora, provavelmente do corredor. Duas pancadas próximas, uma distanciada, andadura irregular de bicho que salta em três pés. Ainda há pouco estava tudo calmo. De repente o relógio velho começou a mexer-se e a viver.
Cerro os olhos, digo a mim mesmo que me fatigo à toa, bocejo, tento lembrar-me de fatos que julgo importantes e logo se tomam mesquinhos. Afinal não veio a desgraça. Vou restabelecer-me em poucos dias. Vou restabelecer-me, passear nas ruas, entrar nos cafés. Se não tivessem levado os chinelos, convencer-me-ia de que não estou muito doente.
Procuro dormir, esquecer tudo, mas o relógio continua a martelar-me a cabeça dolorida. Espero em vão o fonfonar de um automóvel, a cantiga de um bêbado, as vozes de comando, o rumor dos ferros na autoclave. Tenho a impressão de que o pêndulo caduco oscila dentro de mim, ronceiro e desaprumado.
Os infelizes calaram-se, todos os sofrimentos esmoreceram, fundiram-se naquela voz áspera e metálica.
Os meus braços descarnados movem-se como braços de velho. Passo os dedos no rosto, sinto a dureza dos pêlos, as faces cavadas, rugas. Se tivesse um espelho, veria esta fraqueza e esta devastação.
Velhinho, trocando as pernas bambas nas calçadas. Olho as pernas finas como cambitos. A vista escurece. Velhinho, arrimado a um cacete, balbuciando, tropeçando. Toque-toque – o cajado a bater nos paralelepípedos.
O pensamento escorrega de um objeto para outro. A barba crescida deve ter ficado branca, o pescoço engelhou como um pescoço de galinha.
A mulher desapertava a roupa, despia-se cantando, e eu me conservava distante, encabulado, tentando desamarrar o cordão do sapato, que tinha dado um nó. Não podia descalçar-me e olhava estupidamente um despertador que trabalhava muito depressa. Os ponteiros avançavam e o laço do sapato não queria desatar-se.
O professor explicava a lição comprida numa voz dura de matraca, falava como se mastigasse pedras.
O político influente entregava-me a carta de recomendação. Eu gaguejava um agradecimento difícil, atrapalhava-me por causa da datilógrafa bonita, descia a escada perseguido pelos óculos de um secretário e pelo tique-taque da máquina de escrever.
Tudo se confunde. A rapariga que se despia, o professor, o político, misturam-se. A criança doente, os enfermeiros, os médicos, o homem dos esparadrapos, não se distinguem das árvores, dos telhados, do céu, das igrejas.
Vou diluir-me, deixar a coberta, subir na poeira luminosa das réstias, perder-me nos gemidos, nos gritos, nas vozes longínquas, nas pancadas medonhas do relógio velho.
Infância, de Graciliano Ramos
Os 39 capítulos de Infância abordam a vida do autor até os 12 anos de idade, o que atesta seu caráter autobiográfico.
Na obra, é possível entrever uma ausência de complacência para com todos, inclusivo do narrador consigo mesmo [o narrador aparece caracterizado como um menino troncho e esquisito] e com seus pais [aparecem, no romance, como agentes repressores].
Do ponto de vista estrutural, Infância – assim como Vidas secas – apresenta capítulos que podem ser lidos de forma independente, apesar de o livro apresentar unidade temática e formal.
Para saber mais sobre Infância, de Graciliano Ramos, clique aqui e aqui.
Graciliano Ramos e a Segunda Geração do Modernismo
Já em seu romance de estréia, Caetés, de 1933, percebem-se as duas diretrizes principais da obra de Ramos: a preocupação social e a angústia existencial. Com São Bernardo, não é diferente. Nesta obra, há um aprofundamento dessas duas vertentes. O trabalho artístico, entretanto, alcança aqui um nível mais elaborado, o que levou vários críticos a classificarem o romance em questão como uma obra à parte na literatura, na medida em que neste livro encontra-se um grau de estranheza que o torna quase ímpar na literatura brasileira.
A Primeira Geração do Modernismo Brasileiro [1922-1930] renovou os mecanismos de expressão de nossa literatura. Graciliano Ramos, que começa a publicar na década de 1930 – estando, portanto, ligado ao segundo momento do modernismo –, não comunga de tal “renovação”.
Pode-se dizer que sua narrativa é bastante tradicional, na medida em que nela não se notam rupturas verbais, tampouco malabarismos lingüísticos. Sua obra se preocupa mais com a denúncia de situações de opressão vivenciadas pelo homem nordestino.
O romance praticado pelos escritores da Segunda Geração do Modernismo Brasileiro apresenta duas grandes vertentes – uma social e outra psicológica. Tradicionalmente, os manuais de literatura classificam a obra de Graciliano como “social” [ou regional, ou nordestina]. São Bernardo apresenta todos os elementos do dito romance regional [social], mas também desenvolve magistralmente o que se convencionou chamar de “tensão interiorizada” [ou romance psicológico].
Outra classificação utilizada para a obra de Graciliano é a de “neo-realista”. Esse termo pode ser utilizado sem prejuízo algum porque ela retoma procedimentos bastante utilizados pelo realismo-naturalismo, tais como a denúncia social, a análise psicológica e uma forte tendência à objetividade.


