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Arquivo da Categoria ‘Graciliano Ramos’

Segunda geração do modernismo brasileiro

25, junho, 2009 Manoel Neves 1 comentário

O relógio do hospital, de Graciliano Ramos

19, junho, 2009 Manoel Neves Sem comentários

Graciliano RamosO médico, paciente como se falasse a uma criança, engana-me asseverando que permanecerei aqui duas semanas. Recebo a notícia com indiferença. Tenho a certeza de que viverei pouco, mas o pavor da morte já não existe. Olho o corpo magro estirado no colchão duro e parece-me que os ossos agudos, os músculos frouxos e reduzidos, não me pertencem.

 

Nenhum pudor. Alguém me estendeu uma coberta sobre a nudez.

 

Como é grande o calor, descobri-me, embora estivessem muitas pessoas na sala. E não me envergonhei quando a enfermeira me ensaboou e raspou os pêlos do ventre.

 

Ao deitar-me na padiola, deixei os chinelos junto da cama; ao voltar da sala de operações, não os vi.

 

O médico se dirige em linguagem técnica a uma mulher nova, e ela me examina friamente, como se eu fosse um pouco de substância inerte, diz que os meus sofrimentos vão ser grandes.

 

Por enquanto estou apenas atordoado. Aquela complicação, tinir de ferros, máscaras curvadas sobre a mesa, o cheiro dos desinfetantes, mãos enluvadas e rápidas, as minhas pernas imóveis, um traço na pele escura de iodo, nuvens de algodão, tudo me dança na cabeça. Não julguei que a incisão tivesse sido profunda. Uma reta na superfície. Considerava-me quase defunto, mas no começo da operação esta idéia foi substituída por lembranças da aula primária. Um aluno riscava figuras geométricas no quadro-negro.

 

Morto da barriga para baixo. O resto do corpo iria morrer também, no dia seguinte descansaria no mármore do necrotério, seria esquartejado, serrado.

 

Fechei os olhos, tentei sacudir a cabeça presa. Uma cara me perseguia, cara terrível que surgira pouco antes, na enfermaria dos indigentes. Eu ia na padiola, os serventes tinham parado junto a uma porta aberta – a grade alvacenta aparecera, feita de tiras de esparadrapo, e, por detrás da grade, manchas amarelas, um nariz purulento, o buraco negro de uma boca, buracos negros de órbitas vazias. Esse tabuleiro de xadrez não me deixava, era mais horrível que as visões ferozes do longo delírio.

 

O trabalho dos médicos iria prolongar-se, cacete, meses e meses, ou findaria vinte e quatro horas depois, no necrotério? Cortado em pedaços, uma salmoura esbranquiçada cheirando a formol, o atestado de óbito redigido à pressa, um cirurgião de mangas arregaçadas lavando as mãos, extraordinariamente distante de mim.

 

Agora espero os sofrimentos anunciados. Um gemido fanhoso de relógio fere-me os ouvidos e fica vibrando. Insensível, olho as pernas compridas, a dobra que entre elas se forma na coberta. Outras pancadas vaga rosas tremem, abafando os cochichos que fervilham na sala. Parece-me virem juntas à primeira: a meia hora decorrida perdeu-se.

 

Inércia, um vácuo enorme, o prognóstico da mulher nova ameaçando-me. Sono, fadiga, desejo de ficar só. Alguém se debruça na cama, encosta a orelha ao meu coração. Furam-me o braço, uma agulha procura lentamente a veia.

 

Escuridão, silêncio. Depois um instrumento de música a tocar, a sombra adelgaçando-se, telhados, árvores e igrejas esboçando-se à distância. Tenho a sensação de estar descendo e subindo, balançando-me como um brinquedo na extremidade de um cordel.

 

A dormência prolongada pouco a pouco se extingue. Os dedos dos pés mexem-se, em seguida os pés, as pernas – e enrosco-me como um verme. Uma angústia me assalta, a convicção de que me aleijaram. Esta idéia é tão viva que, apesar de terem voltado os movimentos, afasto a coberta, para certificar-me de que não me amputaram as pernas. Estão aqui, mas ainda meio entorpecidas, e é como se não fossem minhas.

 

As idas e vindas, as viagens para cima e para baixo, cansam-me demais, penso que uma delas será a última, que o cordel vai quebrar se, deixar-me eternamente parado.

 

Noite. A treva chega de repente, entra pelas janelas, vence a luz da lâmpada. Uma friagem doce. A chuva açoita as vidraças. Durmo uns minutos, acordo, adormeço novamente. Neste sono cheio de ruídos espaçados – rolar de automóveis, um canto de bêbado, lamentações dos outros doentes – avultam as pancadas fanhosas do relógio. Som arrastado, encatarroado e descontente, gorgolejo de sufocação. Nunca houve relógio que tocasse de semelhante maneira. Deve ser um mecanismo estragado, velho, friorento, com rodas gastas e desdentadas. Meu avô me repreendia numa fala assim lenta e aborrecida quando me ensinava na cartilha a soletração. Voz autoritária e nasal, costumada a arengar aos pretos da fazenda, em ordens ásperas que um pigarro interrompia. O relógio tem aquele pigarro de tabagista velho, parece que a corda se desconchavou e a máquina decrépita vai descansar.

 

Bem. Daqui a meia hora não ouvirei as notas roucas e trêmulas.

 

Vultos amarelos curvam-se sobre a cama, que sobe e desce, levantam-me, enrolam-me em pastas de algodão e ataduras, esforçam-se por salvar os restos deste outro maquinismo arruinado. Um líquido acre molha-me os beiços. Serventes e enfermeiros deslocam-se com movimentos vagarosos e sonâmbulos, a luz esmorece, dá aos rostos feições cadaverosas.

 

Impossível saber se é esta a primeira noite que passo aqui. Desejo pedir os meus chinelos, mas tenho preguiça, a voz sai-me flácida, incompreensível. E esqueci o nome dos chinelos. Apesar de saber que eles são inúteis, desgosta-me não conseguir pedi-Ias. Se estivessem ao pé da cama, sentir-me-ia próximo da realidade, as pessoas que me cercam não seriam espectrais e absurdas. Enfadam-me, quero que me deixem. Acontecendo isso, porém, julgar-me-ia abandonado, rebolar-me-ei com raiva, pensa rei na enfermeira dos indigentes, no homem que tinha uma grade de esparadrapos na cara.

 

Silêncio. Por que será que esta gente não fala e o relógio se aquietou? Uma idéia acabrunha-me. Se o relógio parou, com certeza o homem dos esparadrapos morreu. Isto é insuportável. Por que fui abrir os olhos diante da amaldiçoada porta? Um abalo na padiola, uma parada repentina – e a figura sinistra começara a aperrear-me, a boca desgovernada, as órbitas vazias negrejando por detrás da grade alvacenta. Por que se detiveram junto àquela porta? Dois passos aquém, dois passos além – e eu estaria livre da obsessão.

 

O relógio bate de novo. Tento contar as horas, mas isto é impossível.

 

Parece que ele tenciona encher a noite com a sua gemedeira irritante.

 

Doutor Queirós, principiando a falar, não acaba: é um palavreado infinito que nos enjoa, nos deixa embrutecidos, mudos, mastigando um sorriso besta de cumplicidade.

 

Felizmente o homem dos esparadrapos vive. Repito que ele vive e caio num marasmo agoniado. No silêncio as notas compridas enrolam se como cobras, estiram-se pela casa, invadem a sala, arrastam-se devagar nos cantos, sobem a cama onde me agito apavorado. Que fim levaram as pessoas que me cercavam? Agora só há bichos, formas rastejantes que se torcem com lentidão de lesmas. Arrepio-me, o som penetra-me no sangue, percorre-me as veias, gelado.

 

As vidraças, a chuva, os ruídos, sumiram-se. Há uma noite profunda, um céu pesado que chega até a beira da minha cama. As coisas pegajosas engrossam, vão enlaçar-me nos seus anéis. Tento esquivar-me ao abraço medonho, revolvo-me no colchão, grito.

 

Aparecem de novo as figuras atentas, lívidas. A beberagem acre umedece-me a língua seca, dura como língua de papagaio.

 

– Obrigado.

 

Puxo a coberta para o queixo, o frio diminui. Há um rio enorme, precipícios sem fundo – e seguro-me a ramos frágeis para não cair neles.

 

Ouço trovões imensos. Volto a ser criança, pergunto a mim mesmo, que seres misteriosos fazem semelhante barulho. Meus irmãos pequenos iam deitar-se com medo, minhas tias ajoelhavam-se diante do oratório, a chama das velas tremia, as contas dos rosários chocavam-se como bilros de almofadas, um sussurro de preces enchia o quarto dos santos.

 

Por que estão chiando aqui perto de mim? Estarão rezando? Não houve trovões. Nuvens brancas e altas correm por cima das árvores, das igrejas, do telhado da penitenciária. Olho os tipos que me rodeiam. Afastam-se, falam em voz baixa, presumo que me espiam desconfiados. Acham-me com certeza muito mal, pensam que vou morrer, procuram decifrar as palavras incoerentes que larguei no delírio. Envergonho-me. Terei dito segredos e inconveniências?

 

Desejo atraí-Ias, conversar, mostrar que sou um indivíduo razoável e as maluquices do sonho findaram. Mas a linguagem foge. Procuro chamá-las com um gesto, a mão tomba-me sobre o peito, uma fraqueza paralisa-me.

 

Certamente estou há dias entre a vida e a morte. Agora a febre diminuiu e os monstros que me perseguiam se desmancharam. As dores do ferimento são intoleráveis. Inclino-me para um lado e para outro, certifico-me de que não me trouxeram os chinelos, imagino que vou agüentar uma eternidade de martírios.

 

Gritos agudos de criança rasgam-me os ouvidos, como pregos.

 

Querem ver que a minha operação foi ontem e ficarei aqui amarra do semanas ou meses?

 

Uma balada corta-me o pensamento. Estremeço: parece que ela me chegou aos nervos através da ferida aberta, me entrou na carne como lâmina de navalha.

 

Aqueles soluços desenganados devem vir da enfermeira dos indigentes, talvez o homem dos esparadrapos esteja chorando. Com esforço, consigo encostar as palmas das mãos nas orelhas. Desejo ficar assim, mas a posição é incômoda, os braços fatigam-me, o choro escorrega-me entre os dedos. Se não fosse isto, distrair-me-ia vendo as árvores, o céu, os telhados, falaria aos enfermeiros e aos serventes.

 

Que desgraça estará sucedendo? Deixo cair os braços, os uivos lastimosos da criança recomeçam, as minhas dores crescem, dão-me a certeza de que os médicos atormentam um pequenino infeliz. Penso nos vagabundos miúdos que circulam nas ruas, pedindo e furtando, sujos, esfrangalhados, os ossos furando a pele, meio comidos pela verminose, as pernas tortas como paus de cangalhas. Talvez estejam consertando uma daquelas pernas.

 

Os gritos baixam, transformam-se num estertor.

 

– Por que bolem com aquela criança?

 

A enfermeira avizinha-se, espera que eu repita a pergunta. Aborreço me por não me haver feito compreender, viro-me com dificuldade e minutos depois ouço os passos da mulher, que se afasta nas pontas dos pés.

 

Fará somente vinte e quatro horas que me deixaram aqui derreado? Somo: vinte e quatro, quarenta e oito, setenta e duas. Talvez uns três dias. Isto, setenta e duas horas. Os chinelos desapareceram: ficarei provavelmente um mês, dois meses. Multiplico: sessenta dias, mil quatrocentos e quarenta horas. Fatigo-me, e a conta se complica, ora apresenta um resultado, ora outro. Convenço-me afinal de que são mil quatrocentos e quarenta horas. É bom que a ferida se agrave e me mate logo. Dois meses de tortura, um tubo de borracha atravessando-me as entranhas, visões pavorosas, os queixumes dos indigentes que se acabam junto ao homem dos esparadrapos. Duas mil oitocentas e oitenta vezes o relógio caduco de peças gastas rosnará, ameaçando-me com acontecimentos funestos. Sessenta dias de imobilidade, o pensamento a emaranhar-me em cipoais obscuros.

 

Os gritos da criança elevam-se, o calor aumenta, as árvores e os telhados aproximam-se.

 

Lá estão novamente as horas a pingar do corredor como de uma torneira, gotas pesadas escorrendo lentas.

 

Gargalhadas na rua, barulho de automóvel, o pregão de um vendedor ambulante. Talvez o automóvel seja do médico que me vem fazer o curativo. Não é, passou com um ronco de buzina. Agora o que há são rufos de tambor, vozes de comando.

 

O berro do vendedor ambulante caiu na sala de supetão e ficou rolando, misturado ao choro dos indigentes e ao rumor de ferros na autoclave.

 

– Porcaria, tudo uma porcaria.

 

Zango-me. Não me tratam, deixam-me acabar à míngua, apodrecer como um corpo morto. Silêncio demorado. Penso na criança e no homem que se esconde por detrás da máscara de esparadrapo.

 

– Como vai o menino?

 

A enfermeira responde-me que vai bem, mas certamente procura iludir-me. Há um cadáver miúdo perto daqui, vão despedaçá-lo na mesa do necrotério, os serventes levarão a roupa suja para a lavanderia. Um colchão pequeno dobrado na cama estreita.

 

As vozes de comando, os rufos, o pregão do vendedor ambulante o rumor dos ferros na autoclave, fazem-me falta. Convenço-me de que o silêncio é de mau agouro. Quando ele se quebrar, uma infelicidade surgirá de repente, não poderei livrar-me dela. O suor corre-me na cara. O primeiro som que vier anunciará desgraça, essa idéia desarrazoada não me larga. Reprimo um acesso de tosse, acredito que ele é indício de hemoptises abundantes.

 

Começo a perceber um toque-toque surdo, tropel de cavalo cansado. Naturalmente é o sangue batendo-me nos ouvidos. Um coração quase inútil finda a tarefa maçadora.

 

O cadáver pequeno vai ser transformado em peças anatômicas.

 

Toque-toque. Não é o sangue, é qualquer coisa que vem de fora, provavelmente do corredor. Duas pancadas próximas, uma distanciada, andadura irregular de bicho que salta em três pés. Ainda há pouco estava tudo calmo. De repente o relógio velho começou a mexer-se e a viver.

 

Cerro os olhos, digo a mim mesmo que me fatigo à toa, bocejo, tento lembrar-me de fatos que julgo importantes e logo se tomam mesquinhos. Afinal não veio a desgraça. Vou restabelecer-me em poucos dias. Vou restabelecer-me, passear nas ruas, entrar nos cafés. Se não tivessem levado os chinelos, convencer-me-ia de que não estou muito doente.

 

Procuro dormir, esquecer tudo, mas o relógio continua a martelar-me a cabeça dolorida. Espero em vão o fonfonar de um automóvel, a cantiga de um bêbado, as vozes de comando, o rumor dos ferros na autoclave. Tenho a impressão de que o pêndulo caduco oscila dentro de mim, ronceiro e desaprumado.

 

Os infelizes calaram-se, todos os sofrimentos esmoreceram, fundiram-se naquela voz áspera e metálica.

 

Os meus braços descarnados movem-se como braços de velho. Passo os dedos no rosto, sinto a dureza dos pêlos, as faces cavadas, rugas. Se tivesse um espelho, veria esta fraqueza e esta devastação.

 

Velhinho, trocando as pernas bambas nas calçadas. Olho as pernas finas como cambitos. A vista escurece. Velhinho, arrimado a um cacete, balbuciando, tropeçando. Toque-toque – o cajado a bater nos paralelepípedos.

 

O pensamento escorrega de um objeto para outro. A barba crescida deve ter ficado branca, o pescoço engelhou como um pescoço de galinha.

 

A mulher desapertava a roupa, despia-se cantando, e eu me conservava distante, encabulado, tentando desamarrar o cordão do sapato, que tinha dado um nó. Não podia descalçar-me e olhava estupidamente um despertador que trabalhava muito depressa. Os ponteiros avançavam e o laço do sapato não queria desatar-se.

 

O professor explicava a lição comprida numa voz dura de matraca, falava como se mastigasse pedras.

 

O político influente entregava-me a carta de recomendação. Eu gaguejava um agradecimento difícil, atrapalhava-me por causa da datilógrafa bonita, descia a escada perseguido pelos óculos de um secretário e pelo tique-taque da máquina de escrever.

 

Tudo se confunde. A rapariga que se despia, o professor, o político, misturam-se. A criança doente, os enfermeiros, os médicos, o homem dos esparadrapos, não se distinguem das árvores, dos telhados, do céu, das igrejas.

 

Vou diluir-me, deixar a coberta, subir na poeira luminosa das réstias, perder-me nos gemidos, nos gritos, nas vozes longínquas, nas pancadas medonhas do relógio velho.

Infância, de Graciliano Ramos

22, maio, 2009 Manoel Neves 1 comentário


Infância, de Graciliano RamosOs 39 capítulos de Infância abordam a vida do autor até os 12 anos de idade, o que atesta seu caráter autobiográfico.

 

Na obra, é possível entrever uma ausência de complacência para com todos, inclusivo do narrador consigo mesmo [o narrador aparece caracterizado como um menino troncho e esquisito] e com seus pais [aparecem, no romance, como agentes repressores].

 

Do ponto de vista estrutural, Infância – assim como Vidas secas – apresenta capítulos que podem ser lidos de forma independente, apesar de o livro apresentar unidade temática e formal.

 

Para saber mais sobre Infância, de Graciliano Ramos, clique aqui, aqui e aqui.

[TQA] São Bernardo, de Graciliano Ramos

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São Bernardo, de Graciliano Ramos

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O enredo de “São Bernardo”

20, março, 2009 Manoel Neves 1 comentário


01-02 = Metalinguagem ou “dois capítulos perdidos”: Nos primeiros capítulos, Paulo Honório expõe seu plano de construção do livro pela divisão do trabalho; mostra, ainda, o motivo do insucesso [não consegue controlar os amigos tal qual fazia com os funcionários de sua fazenda], o que o leva a tomar as rédeas da narrativa. Estes dois primeiros capítulos – situados no presente da enunciação – ainda não abordam os fatos que possibilitam ao leitor saber quem é este homem e o que faz da vida. A história propriamente dita – enunciado – só vai começar no capítulo 03.

 

03-10 = Conquista e posse de São Bernardo: No início do capítulo 03, ficamos sabendo que o narrador tem 50 anos, 89 quilos, e que é bastante considerado na região, apesar de sua origem obscura. Abandonado pelos pais, criado por uma negra, a doceira Margarida, Paulo Honório, aos dezoito anos, tem a primeira experiência sexual, de que decorre a primeira violência: esfaqueia João Fagundes, quando este se engraça com Germana, a cabritinha sarará que abrecou [possuiu]. Fica na cadeia por mais de três anos, durante os quais aprendeu a ler com Joaquim sapateiro, que tinha uma Bíblia miúda.

 

Neste tempo, já pensava em ganhar dinheiro, sendo que trabalhou na enxada até então, dentre outros lugares em São Bernardo, onde permanecera no eito e de que desejava se tornar senhor.

 

Emprestando dinheiro a juros, negociando de arma engatilhada no sertão, passando fome e sede, Paulo Honório acumula algum capital e com ele volta à sua terra, município de Viçosa, Alagoas. Aí ficava a fazenda São Bernardo, cujo novo dono, Luís Padilha – filho do falecido patrão de Paulo, Salustiano Padilha – é beberrão, mulherengo e incompetente. Paulo Honório atribui aos estudos que Padilha fizera, sem concluí-los, na cidade, a incompetência que demonstra. Aproxima-se então de Padilha com o propósito calculado de tirar-lhe a propriedade. Consegue ter êxito fazendo-se seu amigo, emprestando-lhe dinheiro, dando-lhe maus conselhos sobre o cultivo de São Bernardo. Subvenciona os investimentos que este faz, e para os quais hipoteca a fazenda. Quando vence a última letra que Padilha lhe devia, Paulo Honório, dirige-se a São Bernardo e praticamente rouba a propriedade de Padilha, que, arruinado, acaba por vendê-la a preço irrisório.

 

Com violência e determinação, Paulo Honório começa a reconstruir a fazenda. Através do capanga Casimiro Lopes, assassina o velho Mendonça, da propriedade vizinha. Invade os domínios vizinhos, compra máquinas, empresta dinheiro de bancos, comete grandes e pequenas violências, ganha causas no fórum graças às trapaças de João Nogueira, o advogado que o protegia.

 

Além do capanga e do advogado, Paulo Honório contava com um jornalista, o Gondim, com o Padre Silvestre e com os políticos da terra, que manejava de acordo com os seus interesses, a fim de vencer. Reconstruída a casa, iniciadas a pomicultura, a avicultura, a plantação de algodão, construída a estrada de rodagem para vender a produção, Paulo Honório resolve casar-se, menos por solidão que pela necessidade de um herdeiro.

 

11 = “Amanheci um dia pensando em casar”: Depois de transformar sua fazenda num modelo de produção, PH pensa em providenciar um herdeiro para suas terras. Conhece, então, Madalena, a professora da vila, e simpatiza com ela.

 

12-17 = Conquista e posse de Madalena: Numa visita à casa do juiz Magalhães, o narrador compara os predicados da filha do juiz, D. Marcela, com os de Madalena. Da articulação dos fatos narrados, depreende-se que PH fôra visitar o juiz com o intuito de conferir os atributos de Dona Marcela. Entretanto, assim que vê Madalena, os planos do nosso protagonista são mudados. Depois de reencontrar Madalena ao chegar de uma viagem a Maceió, o dono de São Bernardo passa a freqüentar a casa da jovem professora, cuja confiança conquista aos poucos. Certo dia, durante uma visita, PH confessa a Madalena seu interesse por ela e a pede em casamento. A professora solicita um tempo para pensar. Findo o período dado por PH para que ela se decidisse, a sobrinha de D. Glória diz que ainda não estava pronta e que poderiam se casar em ano, ao que Paulo Honório diz que negócio para um ano não servia e acaba marcando a data do casamento para uma semana. Observe que, na mesma determinação, no mesmo pragmatismo com que conseguiu a posse e o progresso de São Bernardo, consegue desposá-la, vencendo os argumentos de que ela não lhe tinha amor. Madalena muda-se para São Bernardo, em companhia da tia Glória.

 

18-30 = “Ela vive em um mundo e eu vivo em outro”: Madalena e Paulo Honório: ciúmes, intrigas, desentendimentos: Depois do casamento, o narrador começa a conhecer sua esposa. Tal conhecimento se dá aos poucos, principalmente através das atitudes brutais de PH que acabam gerando desavenças cada vez mais intransponíveis. Ademais, o interesse de Madalena pela vida dos empregados acaba por despertar ciúmes doentios em PH que, por isso, começa a persegui-la implacavelmente, levantando as mais absurdas acusações contra a pobre professora que, diante de tanta incompreensão, torna-se cada vez mais arredia e amargurada. Desde os primeiros dias de casada, Madalena revela interesse em participar dos negócios do marido: dá opiniões, discute política, examina a contabilidade, intercede pelos colonos. O fazendeiro considera a atitude participativa da mulher uma intromissão impertinente. A irritação crescente e as desconfianças em relação à vida intelectual da companheira somam-se às suas inseguranças pessoais, gerando o ciúme doentio com que passa a atormentá-la. Madalena resiste em submeter-se ao mandonismo do marido e os conflitos conjugais tornam-se insuportáveis.

 

A vida de Paulo Honório modifica-se num processo lento, mas fatal de ruína: Madalena, humanitária e esclarecida, interfere em sua rotina de domínio e de exploração. Ajuda os empregados e melhora a situação da escola que Paulo Honório construíra na fazenda apenas para agradar o governador [e cujo professor era Luís Padilha, o antigo dono de São Bernardo]. Trabalha com o guarda-livros, o seu Ribeiro, mostrando uma conduta que Paulo Honório considerava inadequada às mulheres: comunista e intelectual.

 

As brigas iniciadas oito dias após o casamento se repetem e se intensificam, movidas pela incompatibilidade entre a violência de Paulo Honório e a suavidade e a solidariedade de Madalena.

 

Não podendo possuí-la como possuía todas as coisas e pessoas, Paulo Honório passa a duvidar de sua fidelidade, a ter um ciúme doentio que o faz desconfiar do Padilha, do João Nogueira, do Gondim, de todos os homens – do Padre Silvestre ao seu Ribeiro – e finalmente dos empregados da fazenda. Da violência chega então à brutalidade, que estende a D. Glória, e ao filho chorão e feio, abandonado pela mulher, cada vez mais triste e fraca.

 

31 = Morte de Madalena: Certo dia, depois de ajudar Marciano a matar as corujas que estavam no forro da igreja, PH encontra uma folha que fazia parte de um manuscrito de Madalena. Pensando se tratar de uma carta de amor endereçada a um possível amante, PH xinga e ameaça sua esposa, que – para sua surpresa – não reage e conversa sobre coisas estranhas: a professora pede a Paulo para cuidar bem de sua tia e dos seus empregados e pede perdão pelos desgostos que lhe causou. Na manhã seguinte, é encontrada morta – cometera suicídio.

 

32-34 = A desagregação de São Bernardo: Com a morte de Madalena, Paulo Honório vai perdendo as outras pessoas – D. Glória, seu Ribeiro, o Padilha – e também a vontade obcecada de produzir.

 

A Revolução de 1930 dificulta-lhe os negócios e ele não reage. São Bernardo fenece sob os olhos indiferentes do proprietário, que começa então a sentir a derrota de sua antiga imponência: a presença de Madalena perseguindo-o e denunciando a coisificação estúpida que imprimiu em tudo de que se aproximou. Através dela, a quem amava sem conhecer este sentimento e que só depois de morta passa a ter vida em sua subjetividade, Paulo Honório compreende o aleijão que se tornara. Deformado pela profissão que o afastou das pessoas e das relações humanas, substituindo-as por relações de posse, de domínio, de poder bruto e animalesco, Paulo Honório reconhece a própria monstruosidade.

 

35-36 = A vida parada ou a humanização de Paulo Honório: Impotente para se transformar, sem ter simpatia pelos infelizes que o rodeiam, inclusive pelo filho de três anos, desconfiado de tudo e de todos, Paulo Honório amarga a solidão e o isolamento escrevendo um romance e buscando, assim, o sentido de sua vida.

 

É importante observar que, se por um lado, pode-se dizer que Paulo Honório representa a desumanização em estado avançado a que o capitalismo pode submeter o ser humano, por outro, deve-se afirmar que, ao final da narrativa, no capítulo 36, nosso protagonista aparece dotado de uma consciência quase sobre-humana sobre o que o levou à ruína.

 

Veja o que nos diz o narrador, no capítulo 36:

 

Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos… Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.

 

Percebe-se que a consciência adquirida por Paulo Honório – ao longo da narrativa – é, sem dúvida, um fator de humanização. Ao afirmar que, se tivesse outra chance com Madalena aconteceria exatamente o que aconteceu, entrevê-se a opção de Graciliano Ramos pelo determinismo social, que acredita que as ações humanas são conseqüências diretas do meio em que se encontram.

 

Veja que temos aqui um final melancólico, desesperançoso, tal qual ocorre em Vidas secas [que começa e termina com a família de retirantes vivendo exatamente as mesmas situações de penúria e miséria]. Entretanto, Paulo Honório, diferentemente de Fabiano, chega ao final da narrativa sabendo exatamente quem é e o que o levou a perder a única pessoa a quem amara verdadeiramente. A humanização é pequena, mostrando-se, por isso mesmo, insuficiente para mudar o trágico destino que o fazendeiro imprimira à sua vida e à de sua mulher.

 

Composto por trinta e seis capítulos, este romance combina a objetividade e a concisão do enredo com a subjetividade e a emoção reveladas nos monólogos interiores do narrador. Eles intensificam a densidade dramática da narração, interrompendo-a, inclusive, no capítulo dezenove, onde passado e presente, objetividade e subjetividade se confundem, anunciando a decadência do proprietário e o surgimento do homem em seu lugar.

 

OBSERVAÇÃO 01: Em 1972, o cineasta Leon Hirszman fez uma adptação cinematográfica muito fiel ao enredo do livro do escritor alagoano. Para saber mais sobre o filme de Hirszman, clique aqui.


Graciliano Ramos e a Segunda Geração do Modernismo

28, dezembro, 2008 Manoel Neves Sem comentários

Já em seu romance de estréia, Caetés, de 1933, percebem-se as duas diretrizes principais da obra de Ramos: a preocupação social e a angústia existencial. Com São Bernardo, não é diferente. Nesta obra, há um aprofundamento dessas duas vertentes. O trabalho artístico, entretanto, alcança aqui um nível mais elaborado, o que levou vários críticos a classificarem o romance em questão como uma obra à parte na literatura, na medida em que neste livro encontra-se um grau de estranheza que o torna quase ímpar na literatura brasileira.

 

A Primeira Geração do Modernismo Brasileiro [1922-1930] renovou os mecanismos de expressão de nossa literatura. Graciliano Ramos, que começa a publicar na década de 1930 – estando, portanto, ligado ao segundo momento do modernismo –, não comunga de tal “renovação”.

 

Pode-se dizer que sua narrativa é bastante tradicional, na medida em que nela não se notam rupturas verbais, tampouco malabarismos lingüísticos. Sua obra se preocupa mais com a denúncia de situações de opressão vivenciadas pelo homem nordestino.

 

O romance praticado pelos escritores da Segunda Geração do Modernismo Brasileiro apresenta duas grandes vertentes – uma social e outra psicológica. Tradicionalmente, os manuais de literatura classificam a obra de Graciliano como “social” [ou regional, ou nordestina]. São Bernardo apresenta todos os elementos do dito romance regional [social], mas também desenvolve magistralmente o que se convencionou chamar de “tensão interiorizada” [ou romance psicológico].

 

Outra classificação utilizada para a obra de Graciliano é a de “neo-realista”. Esse termo pode ser utilizado sem prejuízo algum porque ela retoma procedimentos bastante utilizados pelo realismo-naturalismo, tais como a denúncia social, a análise psicológica e uma forte tendência à objetividade.