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Arquivo da Categoria ‘Vilma Arêas’

K de know how, de Vilma Arêas

8, fevereiro, 2008 Sem comentários

Entrava pelo banheiro, saía pelos tapetes da sala, escorria ao longo do corredorzinho, submergia aos pés do aparador.

 

Elas miam atrás do andor: tacões, cachos selados, unhas no trançado dos pés, a velha, a moça, por turnos, as gengivas atrás dos lábios.

 

– Uma xicrinha de café?

 

– Um biscoitinho?

 

– Uma cibalena?

 

A velha põe os óculos de louça, a moça separa os cílios, um a um.

 

Saindo, exaustas balançaram os corpos, a moça de cabelo liso, a velha sentando-se nos fios finos. Fluíam das têmporas ao pescoço, ocultando-se sob o vestido.

 

A moça sacudia a cabeça, enjoada: o morno campo de sangue e merda.

 

– Passei tão mal a noite, mamãe!

 

Os pontos caíam um a um de agulhas repletas.

 

– Reparou? As olheiras…

 

– Claro, ele devia se alimentar melhor.

 

– Quando eu morrer…

 

– Ora, mãe, deixa disso. Eu tomo conta dele!

 

– Não é a mesma coisa.

 

– Coitado, como tem sofrido!

 

– Ele puxou a mim.

 

– As olheiras…

 

– São as decepções.

 

Moça protege os olhos, apanha um álbum sobre a mesinha.

 

– Olha quantas mulheres lindas!

 

Com ar sonhador.

 

– Não tem temperamento!

 

– Isso é.

 

– Ana como era linda!

 

– Deixou até o marido. Nem assim ele casou.

 

– Tinha coxas bem lisinhas.

 

– E a Bebé?

 

– E a Cidilina?

 

– E a Maria Aparecida?

 

– Era doutora…

 

A moça fecha o álbum, espanta os dedos da velha para longe.

 

Podiam relaxar a vigília quando vinha a noite e as sombras mexidas nas poltronas: tomavam chá.

 

– Olha, mãe, olha, mana, vou casar.

 

Convidam a noiva para um almoço.

 

As mulheres marchavam pela calçada, tacões altos, tesas. A noiva será de boa família, ascendência italiana.

 

Visitavam os parentes, solenes.

 

– Ela vai casar!

 

– As mulheres italianas são tão lindas!

 

– Pode ser que desta vez…

 

Estavam de frente uma para a outra, brutas, braços caídos; as axilas estão rodeadas de umidade, manchando as blusas.

 

Depois do almoço moviam-se cuidadosas, a despeito da precipitação.

 

O anel de noivado!

 

Ele transpirava, tranqüilo.

 

– Uma safira para combinar com os olhos de Marinela.

 

– Brilhante é que é anel de noivado – insistiu a moça perigosamente, amparando os cílios.

 

– Desta vez quero uma safira.

 

Foram a Paquetá, ele alisava os seios italianos sobre a blusa, no aperto da barca.

 

– Não respeita tua noiva? Quando a gente casar não te dou sossego, mas agora…

 

– Marinela, me dá um retrato teu.

 

Toda encantada.

 

– E para quê? Já tens o original!

 

– Um com dedicatória.

 

Mão pregada no peito, com dificuldade a velha tricota, mas pouco a pouco adquire rispidez; o novelo acelera aos arrancos do coração. Moça lambe minuciosamente as cantoneiras, prega o retrato no álbum.

 

– Marinela! Como era linda!

 

– Muito linda! A mais linda de todas!

 

Os olhos pesam, pesam, pesam, como as corolas encharcadas de luz.