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Arquivo da Categoria ‘Modernismo: 4ª. geração’

O homem cuja orelha cresceu, Ignácio Loyola Brandão

16, novembro, 2008 Sem comentários

Estava escrevendo, sentiu a orelha pesada. Pensou que fosse cansaço, eram 11 da noite, estava fazendo hora-extra. Escriturário de uma firma de tecidos, solteiro, 35 anos, ganhava pouco, reforçava com extras. Mas o peso foi aumentando e ele percebeu que as orelhas cresciam. Apavorado, passou a mão. Deviam ter uns dez centímetros. Eram moles, como de cachorro. Correu ao banheiro. As orelhas estavam na altura do ombro e continuavam crescendo. Ficou só olhando. Elas cresciam, chegavam a cintura. Finas, compridas, como fitas de carne, enrugadas. Procurou uma tesoura, ia cortar a orelha, não importava que doesse. Mas não encontrou, as gavetas das moças estavam fechadas. O armário de material também. O melhor era correr para a pensão, se fechar, antes que não pudesse mais andar na rua. Se tivesse um amigo, ou namorada, iria mostrar o que estava acontecendo. Mas o escriturário não conhecia ninguém a não ser os colegas de escritório. Colegas, não amigos. Ele abriu a camisa, enfiou as orelhas para dentro. Enrolou uma toalha na cabeça, como se estivesse machucado.

 

Quando chegou na pensão, a orelha saia pela perna da calça. O escriturário tirou a roupa. Deitou-se, louco para dormir e esquecer. E se fosse ao médico? Um otorrinolaringologista. A esta hora da noite? Olhava o forro branco. Incapaz de pensar, dormiu de desespero.

 

Ao acordar, viu aos pés da cama o monte de uns trinta centímetros de altura. A orelha crescera e se enrolara como cobra. Tentou se levantar. Difícil. Precisava segurar as orelhas enroladas. Pesavam. Ficou na cama. E sentia a orelha crescendo, com uma cosquinha. O sangue correndo para lá, os nervos, músculos, a pele se formando, rápido. Às quatro da tarde, toda a cama tinha sido tomada pela orelha. O escriturário sentia fome, sede. Às dez da noite, sua barriga roncava. A orelha tinha caído para fora da cama. Dormiu.

 

Acordou no meio da noite com o barulhinho da orelha crescendo. Dormiu de novo e quando acordou na manhã seguinte, o quarto se enchera com a orelha. Ela estava em cima do guarda-roupa, embaixo da cama, na pia. E forçava a porta. Ao meio-dia, a orelha derrubou a porta, saiu pelo corredor. Duas horas mais tarde, encheu o corredor. Inundou a casa. Os hospedes fugiram para a rua. Chamaram a polícia, o corpo de bombeiros. A orelha saiu para o quintal. Para a rua.

 

Vieram os açougueiros com facas, machados, serrotes. Os açougueiros trabalharam o dia inteiro cortando e amontoando. O prefeito mandou dar a carne aos pobres. Vieram os favelados, as organizações de assistência social, irmandades religiosas, donos de restaurantes, vendedores de churrasquinho na porta do estádio, donas-de-casa. Vinham com cestas, carrinhos, carroças, camionetas. Toda a população apanhou carne de orelha. Apareceu um administrador, trouxe sacos de plástico, higiênicos, organizou filas, fez uma distribuição racional.

 

E quando todos tinham levado carne para aquele dia e para os outros, começaram a estocar. Encheram silos, frigoríficos, geladeiras. Quando não havia mais onde estocar a carne de orelha, chamaram outras cidades. Vieram novos açougueiros. E a orelha crescia, era cortada e crescia, e os açougueiros trabalhavam. E vinham outros açougueiros. E os outros se cansavam. E a cidade não suportava mais carne de orelha. O povo pediu uma providência ao prefeito. E o prefeito ao governador. E o governador ao presidente.

E quando não havia solução, um menino, diante da rua cheia de carne de orelha, disse a um policial: “Por que o senhor não mata o dono da orelha?”

Uma vela para Dario, Dalton Trevisan

16, novembro, 2008 Sem comentários

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

 

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

 

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

 

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

 

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede – não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

 

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

 

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

 

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados — com vários objetos — de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

 

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

 

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo – só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

 

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

 

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

 

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

 

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

Mistério e fragilidade, Carlos Heitor Cony

9, novembro, 2008 2 comentários

E na segunda-feira começa o mistério. A casa não tem por onde: nem reposteiros nem mordomos – coisas que propiciam suspenses e mistérios. É amplo o apartamento, sem escuros, sem ângulos mortos, sem portas falsas, sem cadáveres emparedados. Mesmo assim, o mistério começa pelo meu guarda-roupa: vou procurar o blusão de estimação, velho blusão por sinal, desfiado já de tanto uso e suor, e encontro a gaveta revirada, outros blusões amassados e – o mais importante – nenhum vestígio blusão predileto.

 

Não estou em trajes decentes para invadir o corredor e clamar pelo blusão. Tenho de me vestir de paciência e calças. Mas em vestindo as calças, procuro pela carteira e encontro-a em outro canto. Dentro de uma gaveta onde nunca me passou guardar o dinheiro.

 

Inocentemente, não percebo ainda que tramam contra mim. Mas, súbito, vem a suspeita: abro a carteira, conto o dinheiro. Nunca sei a quantas ando, mas tenho vaga idéia de estar eventualmente abonado. Os dedos aflitos correm pelas notas cor de abóbora, uma, duas, três, quatro, e logo a cara hostil do Deodoro da Fonseca numa nota de vinte avisa-me que acabavam as de mil, mas sabia que tinha sido roubado.

 

Grito pelas empregadas. A cozinheira chora, a arrumadeira ameaça despedir-se, o bode está definitivamente e irremediavelmente armado. E o mistério não pára.

 

Mais tarde, atendo a enigmático telefonema que me sonda a antropometria:

 

– É com o senhor mesmo que desejo falar. Qual é o seu colarinho?

 

– O quê?

 

– Colarinho.

 

Avanço o número, mas o camarada me pergunta se sou sólido ou frágil, quantos quilos peso, meu tamanho da cabeça aos pés.

 

– O senhor é papa-defuntos?

 

– Não. Não sou papa-defuntos. Papo os vivos mesmo.

 

E desliga.

 

Aterrado, sondo as esquinas durante a tarde, à espera da punhalada fatal que está a caminho. Alguém me roubou a roupa e o dinheiro, alguém já providenciou um organismo para substituir o meu, tudo está pronto, só falta o principal: o meu cadáver.

 

No dia seguinte, vou catar uns livros no recanto mais sagrado do escritório e dou com um embrulho todo enfeitado. Pode ser uma bomba ou uma serpente, mas também é péssimo gosto embrulhar bomba ou ofídios em papel da Casa Otto. Arrisco o dedo e sinto o macio do linho lá dentro.

 

Então vou pedir desculpas à empregada, prometo aumentos no ordenado, sou vil no arrependimento. E espero pelas duas meninas que tramaram aquilo tudo. Chegam da escola com a cara de sempre, as bochechas suadas, e vendo as bochechas suadas perco a vontade de um interrogatório severo. Opto pelas insinuações.

 

– Sabe que deu ladrão aqui em casa? Roubaram dinheiro do papai.

 

Dando provas de excelente mau caráter, as duas estão preocupadas em mudar o uniforme, chegam a cantarolar “Let’s twist again” numa comovente prova de insensibilidade pelo paterno drama.

 

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Bem, amanhã é Dia dos Pais. Acordarei com as duas meninas em cima de mim e terei de revidar o mau caráter delas com o meu mau caráter, e fingir. Fingir surpresa diante do embrulho. Fingir espanto diante do blusão novo, igualzinho ao antigo de que tanto gostava. Fingir que não sei o preço. Mas isso não me custará muito.

 

Cruel será manter a cara enxuta, os olhos apenas sonolentos, ásperos, sem direito às lágrimas, e o peito encouraçado, sem pretexto para o soluço. E doloroso será abraçá-las sem poder revelar a fragilidade do adulto escuro e medonho em que me transformei. Essa fragilidade que escora o homem só é desnecessário a que estou me habituando e cuja fortaleza – única e imerecida – são dois pequeninos rostos que me beijam e me afagam, como somente as crianças afagam e consolam.

Apresentando “O pagador de promessas”, de Dias Gomes

29, julho, 2008 Sem comentários

Dividida em três atos – sendo os dois primeiros subdivididos em dois quadros cada um –, a peça O pagador de promessas estrutura-se de forma simples, apresentando unidade de ação, tempo e espaço e pouco explorando a psicologia das personagens. Seu enredo pode ser resumido da seguinte maneira: Zé-do-Burro e sua mulher Rosa vivem em uma pequena propriedade a sete léguas de Salvador. Um dia, Zé-do-Burro vai a um terreiro de candomblé a fim de fazer uma promessa a Iansan (Santa Bárbara) para que esta salvasse Nicolau, seu burro de estimação que havia sido atingido por um raio. Com o restabelecimento do animal, Zé-do-Burro põe-se a cumprir a promessa, primeiramente dividindo suas terras com os lavradores mais pobres do que ele, e depois caminhando rumo a Salvador, até onde deveria levar uma imensa cruz de madeira para colocá-la no altar da Igreja de Santa Bárbara. Esta segunda parte de sua promessa, no entanto, é impossibilitada pela resistência do padre Olavo que, ao saber o local onde Zé-do-Burro havia feito a promessa, não permite que ele entre na igreja com sua cruz. Após muitas discussões, Zé-do-Burro, ao tentar entrar à força na igreja, é morto. Por fim, é posto em cima da cruz e conduzido para dentro da igreja por alguns simpatizantes de sua causa.

 

Para baixar a peça, clique aqui.

O anjo esquerdo da história, de Haroldo de Campos

28, julho, 2008 Sem comentários

os sem-terra afinal

estão assentados

na pleniposse da terra:

de sem-terra passagem a

com-terra: ei-los

enterrados

desterrados de seu sopro

de vida

aterrados

terrorizados

terra que à terra

torna

pleniposseiros terra-

tenentes de uma

vala (bala) comum:

pelo avesso afinal

entranhados no

lato ventre do

latifúndio

que de im-

produtivo re-

velou-se assim u-

bérrimo: gerando pingue

messe de

sangue vermelhoso

lavradores sem

lavra ei-

los : afinal con-

vertidos em larvas

em mortuá-

rios despojos :

ataúdes lavrados

na escassa madeira

(matéria)

de si mesmos : a bala assassina

atocaiou-os

mortiassentados

sitibundos

decúbito-abatidos pre-

destinatários de uma

agra (magra)

re(dis)(forme) forma

– fome – a-

grária: ei-

los gregária

comunidade de meeiros

do nada :

 

enver-

gonhada a

goniada

avexada

– envergoncorroída de

imo-abrasivo re-

morso –

a pátria

( como ufanar-se da? )

apátrida

pranteia os seus des-

possuídos parias –

pátria parricida :

 

que talvez só afinal a

espada flamejante

do anjo torto da his-

tória cha-

mejando a contravento e

afogueando os

agrossicários sócios desse

fúnebre sodalício onde a

morte-marechala comanda uma

torva milícia de janízaros-já-

gunços :

somente o anjo esquerdo

da história escovada a

contrapelo com sua

multigirante espada po-

dera (quem dera!) um dia

convocar do ror

nebuloso dos dias vin-

douros o dia

afinal sobreveniente do

j u s t o

a j u s t e de

contas