
Nossa era a guerra assim como nossos eram os corpos tombados no chão. Nossas, as esperanças de não sermos totalmente arrasados pelos projéteis dos inimigos. Quem eram os inimigos? Sabíamos muito bem que nós, unicamente nós, éramos nossos piores inimigos. Guerreávamos contra um inimigo invisível que na verdade era nós mesmos. Atingido duas vezes caí no chão e nem me lembro mais do que aconteceu. Depois? Depois, quem sabe? Estaria morto? Ouvia muito distante a voz de minha irmã me chamando para tomar café, a fazenda de minha avó bem distante, as plantações, o pomar e as tardes intermináveis. A boca quente e o gosto amargo de sangue se mesclando ao gosto ainda fresco de café. A dor não me incomodava. E tudo isso num relance em que minha prima aparecia e me dizia coisas que mal conseguia distinguir. Eu queria gritar, mas, como num sonho, parece que me haviam amordaçado. A fala presa, as lembranças de minha infância se misturavam à incerteza de estar vivo. Quem poderia garantir que tudo aquilo não passava de mentira? Naquela tarde, tudo me pareceu estranho. Os destroços de chumbo em meu corpo. A dor era insuportável. Os lábios de minha prima sempre colados aos meus. O depósito. As brincadeiras de esconder. Ainda me lembro claramente daquele dia. Talvez tivéssemos nove anos, não sei. Minha tia estava no compartimento ao lado. Eu e minha prima corríamos, procurando alcançar um ao outro e num insight decidi que escalaríamos os sacos de alimentos porque havia muitos empilhados como se formassem uma escada. Subimos até chegarmos ao mais alto. Ofegantes, ficamos um momento nos olhando, paralisados de prazer e de dor. Ela estava vermelhinha. O sangue nos meus olhos, de tanto. A minha tia já havia ido embora há alguns minutos. Rubraface. Mas minha prima temendo que alguém nos (ou)visse, pediu que me calasse, passou o braço pelo meu tórax, envolvendo o meu corpo. Nesse momento, comecei a tremer. Traços. Abracei-a e ela, sem saber por quê, aceitou o meu abraço e me beijou. Corpos contritos no escuro. Não pensava que aqueles braços fossem tão perigosos, mas não queria sair dos atravessabraços seus. Éramos unos ali, únicos em nossa sofreguidão. Nem sei se ela havia pensado em alguma coisa. Imagens dançantes na retina. De repente, como se pressentisse alguma coisa, me envolveu, deixando os seus lábios nos meus, apertou-me com tanta força que pensei que não fosse resistir ao medo/gozo daquele momento. Não queria que aquilo –fosse o que fosse– acabasse. Como um rio, foi passando. Num remanso fortuito, gozoso. Parece que havia uma eternidade que esperava por aquilo: minha prima, seu corpo-lábio colado ao meu. Espasmos. Gemidos. Olhos fechados. E eu emaranhado em seus pêlos, em sua teia. Estrondos. Parece que ela queria me dizer alguma coisa. Naquele momento, ouvi a voz de minha tia, pois nem sequer percebera que ela havia voltado. Gozo, medo. Entrei em pânico. Enquanto isso, minha prima se desvencilhou de meu corpo. Entorpecimento. O que ela queria me dizer, isso eu não sabia. Depois fiquei sem ver minha prima durante uns sete anos. Nos encontramos de novo, anos depois, e fingimos que não nos lembrávamos de nada. Amor e dor. Nunca cheguei a comentar o que acontecera naquela tarde. Então eclodiu a guerra e eu tive que vir. Há cinco meses soube que ela havia morrido. Bem distante ouvia a voz de minha mãe. Não conseguia sequer articular sons. Uma dor aguda do lado esquerdo. Meus olhos ficando cada vez mais embaçados. Uma fusão lenta de imagens. Uma tristeza. Uma sensação de vazio. A dor era a mais forte que havia conhecido. Queria chorar mas, como que por encanto, não conseguia. Na verdade, sentia a falta de alguém ali para me acordar. Em minha mente rostos e lábios se confundiam, começavam a ficar embaralhados e iam se fundindo num só. Por fim, só conseguia distinguir os lábios de minha prima e ela me dizia “vem”.