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Nasce morre, Haroldo de Campos
Rima petrosa 2, Haroldo de Campos
1.
Não
da planta do pé
à palma
da mão
não
em cada
unha
em cada
artelho
do dedo
mínimo ao
dedão
não
da anca
da potranca
à curva do joelho
da cintura
ao tornozelo
do cotovelo
ao pulmão
2.
um não
de pedra
um não
de sola
um não
sem nenhum
senão
em cada fio
de cabelo
em cada
dente
em cada
pelo do
pente
do bico do
seio
ao monte de
vênus
da axila
à virilha
à ilharga
à barriga
da perna
do céu da
boca
à interna
rosa em
botão
3.
mas se de tamanho não
tão unânime um não tão
se dessa massa de nãos
como da massa de pão
fermentar um dia um sim
(por mínimo que seja
o seu reçar de cetim)
então nesse meu
brinquedo (sinistro)
de urso
nesse meu jogo
(triste)
de leão –
a contra-sim
a contra-senso
a contra-mim –
serei eu a
dizer não
4.
um não de sins
o meu não
de fel coado de mel
que para dizê-lo assim tão
no seu esforço de não
(como no rim uma pedra
que endureça de paixão)
será preciso queimar
a mão direita no gelo
ou na chapa do fogão
abrir o peito e morder
(como Aquiles quis fazer
ao rei grego Olho-de-Cão
como fez Madona Loba
ao trovador Cabestão)
esse músculo vermelho
coração que bate sim
encarniçado em seu não
Rima petrosa 1, Haroldo de Campos

uma bruteza
límpida
que em nada se detém
uma crueza
lâmina
que se apaga em ninguém
uma lindeza
nítida
que a si mesmo se sustém
uma ingênua fereza
feita só de desdém
uma dura candura
que nem loba que nem
uma beleza absurda
sem porquê nem porém
um negar-se tão rente
que soa um shamisen
uma causa perdida
um não vem que não tem
O anjo esquerdo da história, de Haroldo de Campos
os sem-terra afinal
estão assentados
na pleniposse da terra:
de sem-terra passagem a
com-terra: ei-los
enterrados
desterrados de seu sopro
de vida
aterrados
terrorizados
terra que à terra
torna
pleniposseiros terra-
tenentes de uma
vala (bala) comum:
pelo avesso afinal
entranhados no
lato ventre do
latifúndio
que de im-
produtivo re-
velou-se assim u-
bérrimo: gerando pingue
messe de
sangue vermelhoso
lavradores sem
lavra ei-
los : afinal con-
vertidos em larvas
em mortuá-
rios despojos :
ataúdes lavrados
na escassa madeira
(matéria)
de si mesmos : a bala assassina
atocaiou-os
mortiassentados
sitibundos
decúbito-abatidos pre-
destinatários de uma
agra (magra)
re(dis)(forme) forma
– fome – a-
grária: ei-
los gregária
comunidade de meeiros
do nada :
enver-
gonhada a
goniada
avexada
– envergoncorroída de
imo-abrasivo re-
morso –
a pátria
( como ufanar-se da? )
apátrida
pranteia os seus des-
possuídos parias –
pátria parricida :
que talvez só afinal a
espada flamejante
do anjo torto da his-
tória cha-
mejando a contravento e
afogueando os
agrossicários sócios desse
fúnebre sodalício onde a
morte-marechala comanda uma
torva milícia de janízaros-já-
gunços :
somente o anjo esquerdo
da história escovada a
contrapelo com sua
multigirante espada po-
dera (quem dera!) um dia
convocar do ror
nebuloso dos dias vin-
douros o dia
afinal sobreveniente do
j u s t o
a j u s t e de
contas






