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Arquivo da Categoria ‘Haroldo de Campos’

LIVROCLIP: “Haroldo de Campos, um poeta contra o tédio”

30, janeiro, 2011 Sem comentários
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Nasce morre, Haroldo de Campos

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Rima petrosa 2, Haroldo de Campos

25, fevereiro, 2009 Sem comentários

1.

Não

da planta do pé

à palma

da mão

 

não

em cada

unha

em cada

artelho

do dedo

mínimo ao

dedão

 

não

da anca

da potranca

à curva do joelho

da cintura

ao tornozelo

do cotovelo

ao pulmão

 

2.

um não

de pedra

um não

de sola

um não

sem nenhum

senão

 

em cada fio

de cabelo

em cada

dente

em cada

pelo do

pente

do bico do

seio

ao monte de

vênus

da axila

à virilha

à ilharga

à barriga

da perna

do céu da

boca

à interna

rosa em

botão

 

3.

mas se de tamanho não

tão unânime um não tão

se dessa massa de nãos

como da massa de pão

fermentar um dia um sim

(por mínimo que seja

o seu reçar de cetim)

 

então nesse meu

brinquedo (sinistro)

de urso

nesse meu jogo

(triste)

de leão –

 

a contra-sim

a contra-senso

a contra-mim –

 

serei eu a

dizer não

 

4.

um não de sins

o meu não

de fel coado de mel

que para dizê-lo assim tão

no seu esforço de não

(como no rim uma pedra

que endureça de paixão)

será preciso queimar

a mão direita no gelo

ou na chapa do fogão

abrir o peito e morder

(como Aquiles quis fazer

ao rei grego Olho-de-Cão

como fez Madona Loba

ao trovador Cabestão)

esse músculo vermelho

coração que bate sim

encarniçado em seu não

Rima petrosa 1, Haroldo de Campos

6, janeiro, 2009 Sem comentários

uma bruteza

límpida

que em nada se detém

 

uma crueza

lâmina

que se apaga em ninguém

 

uma lindeza

nítida

que a si mesmo se sustém

 

uma ingênua fereza

feita só de desdém

 

uma dura candura

que nem loba que nem

 

uma beleza absurda

sem porquê nem porém

 

um negar-se tão rente

que soa um shamisen

 

uma causa perdida

um não vem que não tem

O anjo esquerdo da história, de Haroldo de Campos

28, julho, 2008 Sem comentários

os sem-terra afinal

estão assentados

na pleniposse da terra:

de sem-terra passagem a

com-terra: ei-los

enterrados

desterrados de seu sopro

de vida

aterrados

terrorizados

terra que à terra

torna

pleniposseiros terra-

tenentes de uma

vala (bala) comum:

pelo avesso afinal

entranhados no

lato ventre do

latifúndio

que de im-

produtivo re-

velou-se assim u-

bérrimo: gerando pingue

messe de

sangue vermelhoso

lavradores sem

lavra ei-

los : afinal con-

vertidos em larvas

em mortuá-

rios despojos :

ataúdes lavrados

na escassa madeira

(matéria)

de si mesmos : a bala assassina

atocaiou-os

mortiassentados

sitibundos

decúbito-abatidos pre-

destinatários de uma

agra (magra)

re(dis)(forme) forma

– fome – a-

grária: ei-

los gregária

comunidade de meeiros

do nada :

 

enver-

gonhada a

goniada

avexada

– envergoncorroída de

imo-abrasivo re-

morso –

a pátria

( como ufanar-se da? )

apátrida

pranteia os seus des-

possuídos parias –

pátria parricida :

 

que talvez só afinal a

espada flamejante

do anjo torto da his-

tória cha-

mejando a contravento e

afogueando os

agrossicários sócios desse

fúnebre sodalício onde a

morte-marechala comanda uma

torva milícia de janízaros-já-

gunços :

somente o anjo esquerdo

da história escovada a

contrapelo com sua

multigirante espada po-

dera (quem dera!) um dia

convocar do ror

nebuloso dos dias vin-

douros o dia

afinal sobreveniente do

j u s t o

a j u s t e de

contas