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Escombros de junho, de Carlos Heitor Cony

26, dezembro, 2009 Manoel Neves Sem comentários

 

Carlos Heitor Cony

Carlos Heitor Cony

Essas músicas juninas doem aqui dentro, fundo e irreparavelmente. Já expurguei minha modesta discoteca dos discos antigos, mas evitar quem há de? A gente passa pelas ruas e há sempre a vitrola berrando as canções de outros tempos e outras saudades.

“Cai, cai balão,/ não deixa o vento te levar…”

A música é triste, feita pelo homem triste que acabou se matando, o Assis Valente, autor daquela canção de Natal, que longe está, e enfrentemos com mão crispada este junho sem balões e sem fogueiras, este junho de apartamento e compromissos.

“A ventania/ de tua queda vai zombar/ cai, cai balão,/ não deixa o vento te levar…”

Não há ventania por ora, e tudo parece sólido. Mas a canção despejada no fim de tarde me surpreende na rua, cheia de gente apressada em busca de condução para casa. As luzes já estão acesas e ninguém estanca para ouvir a canção. Só eu tenho tempo e motivo de parar e olhar o chão, em busca de raízes insepultas e dolorosas.

As canções de carnaval não doem tanto. Não sou lá de carnaval, suas músicas passam e pouco me marcam. Mas em junho, a infância retorna inteira, trazida nas mesmas canções e gestos. E não só a infância, as garotas crescem e, ao invés de gastarem o São João ao meu lado, preferem as festas onde acabam dançando tuíste.

E este ódio vem subitamente à tona com a música que a casa comercial despeja cruelmente sobre nossas cabeças. Não há de ser nada, não há de ser nada, a música acabou e começa outra, embora inclemente em seu significado:

“Com a filha de João,/ Antônio ia se casar…”

Vejo a garotinha diante da mesa cheia de doces, alisando a toalha e batendo com os pés na cadência da música. Chego em silêncio e em silêncio surpreendo os olhos daquela menininha que é minha filha. Estão cheios de balões e de luzes, de fogos e carinhos. Fecho as mãos sobre sua cabeça e peço, a não sei quem, que me guarde aquilo para mim, aquele mundo de magia e amor que cabe numa cabecinha tão pequenina e doce.

Pelas paredes, os meus balões pendem como escombros coloridos. Gastara um mês fazendo balões, enormes, as crianças ajudavam como podiam e não podiam muito, mas assim mesmo gostavam. E agora, quando a grande noite vai começar, eu agarro com desespero aquela frágil cabeça pedindo eternidade para meus balões e para minhas ambições que não passam dos estreitos limites de duas garotas que vêm pedir para acender as lanternas:

– Ta na hora papai!

Eu valorizo a festa e a espera:

– Falta pouco ainda. O céu ainda está azulado.

Depois, a noite caiu, negra, para sempre. Proibiram balões e, de minha janela do Posto 6, não posso soltar nem estrelinhas. As meninas dançam tuíste e não tenho o que fazer a não ser roer a solidão e a rapadura que o parente da roça me mandou por equívoco, pensando que eu gostasse. Sim, tudo mudou, menos as canções que são as mesmas.

Fecho os olhos então, e vejo passar sem ruído, na noite que cobre minhas vergonhas, os balões de meu pai, mais tarde os meus próprios balões, iluminados, em silêncio. Balões que nunca me libertaram de seu legado de tristeza, mansidão e fragilidade. E triste e manso, fecho as janelas para proteger a fragilidade do homem acorrentado em seus fantasmas de papel fino.

O suor e a lágrima, Carlos Heitor Cony

11, julho, 2009 Manoel Neves Sem comentários

Carlos Heitor ConyFazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

 

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

 

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

 

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

 

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

 

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

 

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

 

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

A farsa e os farsantes, de Carlos Heitor Cony

31, dezembro, 2008 Manoel Neves Sem comentários

É na hora de levantar da mesa que a garota sente a dor. Morde os beiços, solta o grito:

 

– Papai!

 

O pai penteia a menor que vai ao colégio. Cabelos revoltos, cabeça mais revolta ainda, é um drama manter aqueles fiapos arrumados em cima do pequenino crânio que ele tanto ama.

 

– Que foi?

 

E antes de qualquer resposta, abre os braços para receber a filha que vem caindo, aos pedaços, o rosto vermelho, duas lágrimas súbitas correndo, pelas gordas bochechas:

 

– Minha perna!

 

Recebe a filha nos braços, tenta forçá-la a andar, mas o corpo dela cai para o lado, a perna parece endurecida, como se fizesse parte de um outro organismo. Então apela para a força e levanta-a nos braços, já há muito não a segura assim, desde que começara a ficar mocinha. No trajeto da sala para o quarto lembra noites antigas, em que a menina acordava e pedia colo, ele ficava a noite inteira com o pequenino corpo nos braços, andando pelo escuro com sua preciosa carga feita de amor, medo e duas mãozinhas que o agarravam quando tentava deitá-la outra vez na cama.

 

Agora, o corpo cresceu, pesa em seus braços, mas a fragilidade da menina é a mesma.

 

A menor fica pelos cantos, a cara amarrada, rosnando. Numa pausa, enquanto procura a pomada para fazer a fricção doméstica, vê a menor tirando o uniforme.

 

– Quê que é isso? Você não vai ao colégio?

 

A resposta é negativa. Se a outra não vai, ela também não vai. O pai argumenta com a dor, a pomada cor de iodo que começa a esfregar pelos joelhos da outra, mas a menor é sábia e vil quando insinua:

 

– Isso é embromação, papai! Ela não tem nada!

 

A vontade primeira é esfregar pomada no nariz dela. Nunca a mais velha fingiria a esse ponto. Espinafra a menor, cita exemplos antigos e convincentes, apanha a merendeira e a pasta, empurra-a pelo elevador e quase se esquece de recomendar à empregada para desculpar a falta da outra.

 

E a outra faz o seu papel de dor e impotência. As lágrimas secam, mas a perna ainda dói – e ele descobre um vermelhão perto dos joelhos e teme. Olha uma velha imagem de Santa Luzia que a mãe lhe havia dado, pensa mecanicamente em rezar, pedir proteção para aquele joelho, mas assim também não, é covardia demais, e prefere telefonar para o médico.

 

Quando acaba de discar, e antes de o médico atender, a filha já se levantara e correra ao telefone para cortar a ligação.

 

– Não precisa não, papai, eu já estou boa!

 

– O quê?

 

E novo pranto, desta vez mais sincero: aos soluços, a verdade é dita:

 

– Eu não sabia nada para a prova, papai!

 

Alisa os cabelos da filha, feliz já, de não ser nada. E a certeza de que a filha não tivera nada lhe dá súbita e incontrolada ternura. Beija-a avidamente, reencontrado em sua rotina e sossego.

 

– E agora?

 

Agora, é tratar de passar a tarde juntos, como há muito tempo não passavam. Desencavam velhas revistas, deitam-se na cama e ficam vendo figuras, depois jogam uma partida de batalha naval, A6, F7, D8 água.

 

Acerta uma parte do cruzador. Água. Ela ganha por dois submarinos e um pedaço de avião.

 

– Vamos fazer banana frita?

 

Enxotam as duas empregadas da cozinha e fazem, eles mesmos, a banana frita, e comem com avidez e grandes goles de guaraná. Até que, de repente, quando maior é a comilança, ouvem o barulho do elevador que para no andar.

 

– É ela!

 

Pelo jeito furioso de bater a campainha, é mesmo a menor que volta do colégio. Então, pai e filha olham-se nos olhos e correm para o quarto. Quando a outra chega, encontra a irmã gemendo sobre a cama, e o pai, apreensivo e corrupto, abaixando o termômetro com grandes solavancos, para ver se a febre já tinha passado.

Mistério e fragilidade, Carlos Heitor Cony

9, novembro, 2008 Manoel Neves 2 comentários

E na segunda-feira começa o mistério. A casa não tem por onde: nem reposteiros nem mordomos – coisas que propiciam suspenses e mistérios. É amplo o apartamento, sem escuros, sem ângulos mortos, sem portas falsas, sem cadáveres emparedados. Mesmo assim, o mistério começa pelo meu guarda-roupa: vou procurar o blusão de estimação, velho blusão por sinal, desfiado já de tanto uso e suor, e encontro a gaveta revirada, outros blusões amassados e – o mais importante – nenhum vestígio blusão predileto.

 

Não estou em trajes decentes para invadir o corredor e clamar pelo blusão. Tenho de me vestir de paciência e calças. Mas em vestindo as calças, procuro pela carteira e encontro-a em outro canto. Dentro de uma gaveta onde nunca me passou guardar o dinheiro.

 

Inocentemente, não percebo ainda que tramam contra mim. Mas, súbito, vem a suspeita: abro a carteira, conto o dinheiro. Nunca sei a quantas ando, mas tenho vaga idéia de estar eventualmente abonado. Os dedos aflitos correm pelas notas cor de abóbora, uma, duas, três, quatro, e logo a cara hostil do Deodoro da Fonseca numa nota de vinte avisa-me que acabavam as de mil, mas sabia que tinha sido roubado.

 

Grito pelas empregadas. A cozinheira chora, a arrumadeira ameaça despedir-se, o bode está definitivamente e irremediavelmente armado. E o mistério não pára.

 

Mais tarde, atendo a enigmático telefonema que me sonda a antropometria:

 

– É com o senhor mesmo que desejo falar. Qual é o seu colarinho?

 

– O quê?

 

– Colarinho.

 

Avanço o número, mas o camarada me pergunta se sou sólido ou frágil, quantos quilos peso, meu tamanho da cabeça aos pés.

 

– O senhor é papa-defuntos?

 

– Não. Não sou papa-defuntos. Papo os vivos mesmo.

 

E desliga.

 

Aterrado, sondo as esquinas durante a tarde, à espera da punhalada fatal que está a caminho. Alguém me roubou a roupa e o dinheiro, alguém já providenciou um organismo para substituir o meu, tudo está pronto, só falta o principal: o meu cadáver.

 

No dia seguinte, vou catar uns livros no recanto mais sagrado do escritório e dou com um embrulho todo enfeitado. Pode ser uma bomba ou uma serpente, mas também é péssimo gosto embrulhar bomba ou ofídios em papel da Casa Otto. Arrisco o dedo e sinto o macio do linho lá dentro.

 

Então vou pedir desculpas à empregada, prometo aumentos no ordenado, sou vil no arrependimento. E espero pelas duas meninas que tramaram aquilo tudo. Chegam da escola com a cara de sempre, as bochechas suadas, e vendo as bochechas suadas perco a vontade de um interrogatório severo. Opto pelas insinuações.

 

– Sabe que deu ladrão aqui em casa? Roubaram dinheiro do papai.

 

Dando provas de excelente mau caráter, as duas estão preocupadas em mudar o uniforme, chegam a cantarolar “Let’s twist again” numa comovente prova de insensibilidade pelo paterno drama.

 

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Bem, amanhã é Dia dos Pais. Acordarei com as duas meninas em cima de mim e terei de revidar o mau caráter delas com o meu mau caráter, e fingir. Fingir surpresa diante do embrulho. Fingir espanto diante do blusão novo, igualzinho ao antigo de que tanto gostava. Fingir que não sei o preço. Mas isso não me custará muito.

 

Cruel será manter a cara enxuta, os olhos apenas sonolentos, ásperos, sem direito às lágrimas, e o peito encouraçado, sem pretexto para o soluço. E doloroso será abraçá-las sem poder revelar a fragilidade do adulto escuro e medonho em que me transformei. Essa fragilidade que escora o homem só é desnecessário a que estou me habituando e cuja fortaleza – única e imerecida – são dois pequeninos rostos que me beijam e me afagam, como somente as crianças afagam e consolam.