Arquivo

Arquivo da Categoria ‘Modernismo: 4ª. geração’

Da salvação da pátria, de Carlos Heitor Cony

23, janeiro, 2012 Sem comentários
Carlos Heitor Cony

Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua.

Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no posto 6, segundo me afirmam, há briga e morte. Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas forças armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita.

E vejo. Vejo um heroico general, à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV-Rio chamou de “gloriosa barricada”. Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da Avenida Atlântica com a Rua Joaquim Nabuco. Mas o general destina-se à missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro. Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e, antes de oferecer meus préstimos patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.

– General, para que é isto? O intrépido soldado não se dignou a olhar-me. Rosna, modestamente:

– Isso é para impedir os tanques do I Exército!

Apesar de oficial da reserva – ou talvez por isso mesmo, sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares. Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde moro. Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.

Qual não é meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o I exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.

Nessa altura, há confusão na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa “aderir aos rebeldes”. A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir.

Os rapazes de Copacabana, belos espécimes de nossa sadia juventude, bem nutridos, bem fumados, bem motorizados, erguem o general em triunfo. Vejo o bravo cabo-de-guerra passar em glória sobre minha cabeça. Olho o chão.

Por acaso ou não, os dois paralelepípedos lá estão, intactos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá perto, com a ponta do sapato tento derrubá-los. É coisa relativamente fácil.

Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um cadillac conversível para perto do “Six” e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino também Nacional e declara todos que a Pátria está salva.

Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.

– É carnaval, papai?

– Não.

– É campeonato do mundo?

– Também não.

Ela fica sem saber o que é. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.

“Paraísos artificiais”, de Paulo Henriques Britto

9, janeiro, 2012 Sem comentários
Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto

Paraísos artificiais

Paraísos artificiais é o primeiro livro em prosa escrito pelo laureado poeta Paulo Henriques Britto. Publicado em 2004, o volume reúne nove contos escritos, segundo o autor, em sua maioria, entre os anos de 1972 e 1973, quando esteve estudando cinema nos Estados Unidos, e reelaborados em meados dos anos 1990, referente temporal claro da novela “Sonetos negros”, que alude a fenômenos culturais como laptop e Hello Kitty.

Não há claramente um fio condutor ou unidade temática no livro, o que se constata é que as narrativas desencadeiam-se a partir de pequenas situações prosaicas, comuns, mas que se revelam inusitadas [como acontece em “O 921”] ou de encontros embaraçosos, como são os casos de “Coisa de família” e “O primo”, por exemplo. Os pretextos, enfim, para o desenvolvimento das narrativas podem ser mínimos, diríamos, banais, entretanto, a força desses contos ou impasses, nada triviais, que são criados em meio às situações vividas pelas personagens, é um alento para a literatura produzida no Brasil desde os anos 1970.

Em relação ao espaço, a ambientação é urbana. Em vários contos, percebe-se que as histórias se passam no Rio de Janeiro, com referências a bairros dessa cidade, o que se pode ver, por exemplo, em “O 921”. A exceção fica por conta de “Sonetos negros”, ambientada na fictícia cidade de São Dimas, e de “Coisa de família”, ambientada nos EUA.

Predominantemente centrados na primeira pessoa, os contos de Paraísos artificiais, como se lê na orelha do livro, são vazados por uma linguagem coloquial e transparente que captura e expõe seus objetos sem rodeios.

Como também salienta Walter Carlos Costa, um dos pontos fortes do livro de Paulo Henriques Britto é o domínio da linguagem. O que chama mais a atenção, de início, são os diálogos. As personagens de Paraísos artificiais falam como estamos acostumados a ouvir em casa, na rua ou nas telenovelas nacionais, mas ainda pouco na ficção.

Paulo Henriques Britto, em Paraísos artificiais encena, através da construção literária, teorias sobre a construção do texto literário.

O título do livro, que dialoga intertextualmente com a obra de Charles Baudelaire, aparece espelhado no primeiro conto do livro, “Os paraísos artificiais”.

O mesmo procedimento acontece na última narrativa, “Os sonetos negros”, novela em cujo título há referência ao livro de poemas Sonetos negros que é objeto de estudo da tese de doutorado da narradora Tânia.

Os contos de Paraísos artificiais discutem, através da metalinguagem, por vezes explícita, como nas duas primeiras narrativas, por vezes, sutil, como na terceira narrativa, o processo de construção discursiva ali materializado.

Ao invés de as narrativas apontarem para outras áreas do saber, o objeto da narrativa é a própria narrativa. Ou seja, o locutor não só fala dos mecanismos de construção do texto que articula, mas também discute mecanismos literários.

Os multiculturalistas afirmam que o texto vem da cultura, ou seja, que o lugar social e as idiossincrasias que permearam a formação do autor, ainda que inconscientemente, [se] configuram [n]o texto e determinam o processo de produção de sentido, mesmo que o autor não queira. Configuram-se como uma voz que ultrapassa a consciência do autor e se inscreve no texto.

Ora, falar que o texto vem da cultura implica dar uma origem para a voz que o articula. Essa origem é que determina a leitura que os multiculturalistas fazem dos textos literários.

Para Britto, fazer uma leitura literária partindo de um a priori, seja ele a figura do autor seja ele a figura da cultura, é restringir as potencialidades de significação literária. Essa é tese defendida pela revolucionária novela “Os sonetos negros”, narrativa que fecha a coletânea e satiriza impiedosamente os estudiosos que, ao invés de trazerem o texto literário para o centro da discussão literária, preferem discutir se o autor é judeu, homossexual ou indígena.

Diferentemente do que vem acontecendo nos escritos debatidos nas academias de Letras depois do final dos anos 1990, neste livro o que importa é o texto literário em si mesmo.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

A narrativa brasileira depois de 1960

6, janeiro, 2012 Sem comentários

O poema processo

5, janeiro, 2012 Sem comentários

Mário Chamie e a poesia práxis

5, janeiro, 2012 Sem comentários