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Arquivo da Categoria ‘Barroco’

“Antologia”, de Gregório de Matos

11, fevereiro, 2011 Sem comentários

Gregório de MatosA primeira constatação diante da poesia de Gregório de Matos é a de que ela apresenta faces de fronteiras móveis e contraditórias entre si, como o sagrado e o profano, o lírico e o pornográfico, o satírico e o laudatório. E essa pluralidade da poética gregoriana atesta sua identidade barroca.

O grande problema que se apresenta, de imediato, ao estudioso da obra de Gregório é o da autoria dos poemas. Os textos atribuídos ao poeta baiano são apógrafos, ou seja, não apresentam originais do próprio punho do autor. Decorrem dessa realidade duas versões que dividem os críticos. De um lado, a posição defendida por Wilson Martins, nos seguintes termos: “Sob o nome de Gregório de Matos podemos compreender sem maiores prejuízos nem excessivas hesitações, qualquer coisa como um poeta coletivo, uma espécie de constelação de poetas, em que os anônimos e desconhecidos se dissolvem na figura do epônimo – aquele que dá ou empresta o nome a alguma coisa – e nele se transubstanciam para formar esse grande e imaginário poeta brasileiro do século XVII: Gregório de Matos.”

A mesma posição é referendada por João Adolfo Hansen, para quem Gregório de Matos seria “uma etiqueta, uma unidade cambiante e imaginária”.

Do outro lado, o ponto de vista que João Carlos Teixeira Gomes formula com estas palavras parece-nos muito mais coerente: “Pelo menos por trás de expressiva parte da produção satírica que nos chegou sob o patrocínio do nome de Gregório de Matos há um poeta único, que se desvela na familiaridade de uma convivência textual prolongada, e que sugere ter colocado nos apógrafos numerosos sinais da sua existência como homem e de sua individualidade como poeta, falando com dicção própria, mesmo quando a sua voz parece dissolvida no coro das convenções barrocas”.

No conjunto da obra de Gregório, podemos distinguir duas situações: de um lado, os poemas – elaborados dentro da convenção culta e impessoal imposta pela tradição literária peninsular [Portugal e Espanha] – que refletem a integração harmoniosa do poeta com o status quo. Estão nesse caso os poemas líricos em geral – ausentes desta Antologia –, com seus recursos gongorizantes [influência do poeta espanhol Don Luís de Gôngora y Argote]. De outro lado, os poemas que traduzem o rompimento com a convenção e a abertura à realidade brasileira, nos quais se nota a presença do chiste, do palavrão e da expressão corriqueira, inclusive na sua feição erótica e mesmo obscena.

Gregório não foi somente o primeiro “jornal” que circulou na Colônia. Foi também a primeira “enciclopédia” de nossos costumes, folclore, o primeiro “dicionário indígena e africano”, o primeiro “manual de gíria” do Brasil-Colônia, conferindo uma dimensão tropical e americana ao barroco peninsular.

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Padre Antônio Vieira: vida e obra

29, maio, 2009 3 comentários

Padre Antônio VieiraA VIDA

 

Anota Eugênio Gomes que Antônio Vieira nasceu em Lisboa no ano de 1608 e sua chegada à Bahia ocorre em 1614, só voltaria a Portugal 27 anos depois. Foi aluno do Colégio dos Jesuítas baiano, onde revelou sua vocação para a carreira religiosa, ingressando na Companhia de Jesus em 1623. Em 1634, ordenou-se padre e começou a formar fama como pregador.

 

Após a revolução durante a qual Portugal libertou-se do domínio espanhol, em 1640, integrou a missão brasileira que foi a Lisboa exprimir a adesão do Brasil ao novo rei, D. João IV. Permanecendo em Portugal, torna-se amigo da família real e conselheiro do rei.

 

Teve grande prestígio entre os aristocratas portugueses, e seus sermões influenciaram positivamente a opinião pública quando à atuação do governo português, principalmente durante a luta contra a Espanha. Suas idéias de acolher os cristãos novos (judeus), tornando isento de impostos aqueles que investissem na Companhia das Índias Ocidentais, renderam-lhe ódios implacáveis do Santo Ofício.

 

Embarcou para o Maranhão em 1652, onde defendeu a libertação dos índios cativos, que os portugueses pretendiam conservar escravizados. Sua desavença com os colonos portugueses custou-lhe a prisão e o desterro para Portugal. Sem amigos nem simpatias na corte – após a morte de D. João IV –, foi perseguido implacavelmente pelos inimigos, que acabaram por levá-lo ao tribunal do Santo Ofício. Preso e condenado, conseguiu o perdão após intensas negociações com Roma, graças a sua extrema habilidade política e lingüística.

 

Já no fim da vida, foi nomeado pela Companhia de Jesus visitador da província do Brasil, tarefa que exigia mais saúde do que ele tinha então. Após dois anos nesse caso, foi envolvido em processo instaurado pelos jesuítas, sendo repreendido publicamente. Algum tempo depois, falecia, em 1697.

 

A OBRA

 

A obra de Vieira representa bem aspectos da literatura barroco. Para Massaud Moisés, o Barroco está diretamente relacionado com a Contra-Reforma. Esta encontra no estilo barroco os aspectos estéticos perfeitamente ajustados à estratégia antiluterana e à expansão da Fé cristã: e a solidariedade profunda, que a Companhia de Jesus, criada em razão do Concílio de Trento [1545-1563], exemplifica, provém de a Contra-Reforma e o Barroco pugnarem, até certo ponto, pelo retorno aos modelos medievais, em detrimento dos valores clássicos. De onde a fisionomia dilemática do Barroco e o esforço de reduzir a polaridade a uma unidade: uma infindável tensão dialética, corpo e espírito se fundem intimamente, de modo que a alma se converte numa entidade concreta e a carne se espiritualiza.

 

Duas atitudes marcam o Barroco literário: o cultismo e o conceptismo. O primeiro é plástico, visual, sensorial, cromático, rebuscado, repleto de inversões sintáticas, abuso de metáforas, de trocadilhos e de antíteses. Cultismo e gongorismo tornaram-se sinônimos, devido à poesia rebuscada de Gôngora, poeta espanhol. Já conceptismo, defendido por Vieira [que atacava o cultismo] apresenta um caráter mais lógico, uma preocupação em buscar a íntima essência das coisas através de conceitos e raciocínios. Emprega sistematicamente o silogismo, enredando o leitor na malha de conceitos apertados, procurando conduzi-lo à assimilação das doutrinas anti-reformistas.

 

Vieira era homem de ação, mas que se valia também de uma imaginação prodigiosa e poética, recorrendo, por vezes, a pseudo-juízos analíticos, a processos que se pretendem rigorosamente lógicos e que são etimológicos, gramaticais, analógicos. Observa Jacinto Prado Coelho que é impossível discernir fronteiras entre o puro jogo intelectual e a convicção profunda, que dita o propósito de persuadir e converter. Vieira, muitas vezes, evidenciou o visível desejo de provocar o espanto, o pasmo através de uma lógica aparente. Sua inspiração arrastava-o de forma impetuosa. Entretanto, essa abundância era conduzida, organizada, por moldes mentais e estilísticos: contidas em frases geometricamente dispostas. O orador combinava habilmente o estilo amplo, espraiado, com densidade concisa, própria do estilo humilde, familiar, introspectivo.

 

VIEIRA E O CINEMA

 

Existem dois filmes que abordam aspectos da vida e da obra do Padre Antônio Vieira.

 

Palavra e utopia, dirigido pelo cineasta português Manoel de Oliveira, aborda várias fases da vida de Vieira e se detém na análise do pensamento do orador barroco. O filme está disponível neste link.

 

Já em Sermões: a história de Antônio Vieira, de Júlio Bressane, tem-se – além dos aspectos biográficos – uma abordagem de seus sermões mais conhecidos. O filme está disponível nos quatro links listados a seguir: 01, 02, 03 e 04.