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Cobra norato, de Raul Bopp, encenado pelo Grupo Giramundo

Cobra Norato, Raul Bopp

A PEÇA

 

Encenado pelo Grupo Giramundo Teatro de Bonecos pela primeira vez em 1979, o espetáculo Cobra Norato é considerado, tanto pelo público quanto pela crítica, um dos mais belos do Giramundo, e foi escolhida pela TV Escola para se transformar em vídeo e entrar na grade de programação do canal, mostrando aspectos geográficos, lingüísticos e abordando a pluralidade cultural do Brasil.

 

A peça é baseada no texto homônimo de Raul Bopp, que foi escrito, pela primeira vez, em 1921, em decorrência das várias andanças de seu autor pela Amazônia. Em 1931, depois de várias alterações, o poema é editado por iniciativa dos amigos e à revelia do autor. Do ponto de vista literário, o poema se insere no contexto histórico do Manifesto Antropofágico e do Modernismo, movimentos que renovaram o panorama das artes no Brasil, nas primeiras décadas do século XX.

 

Cobra Norato pertence à classe dos mitos serpentários do folclore da Amazônia, que inclui as lendas da Cobra Grande, Boiúna e Cobra de Óbidos, e se relaciona com os mitos aquáticos de Iara, Mãe D’Água e Iemanjá. Segundo a lenda, uma cunhã foi engravidada pela Boiúna, parindo duas crianças; mas, obrigada pelo Pajé, acabou por atirá-las no rio onde se criaram, transformadas em cobra.

 

O menino, chamado Honorato [Norato], tinha boa índole, mas sua irmã, Maria Caninana, era perversa, perseguia animais e afogava os navegantes. Isso fez com que Norato a matasse para se ver livre dela e viver em paz. Cobra Norato, à noite, costuma se transformar em rapaz elegante e dançar nas festas à beira do rio, deixando na margem seu imenso couro de cobra.

 

O LIVRO DE RAUL BOPP

 

No ventre da noite, o poeta estrangula a Cobra Norato e enfia-se em sua pele elástica para sair dos confins da floresta amazônica em direção a Belém do Pará, em busca da filha da Rainha Luzia, com quem ele quer se casar.

 

O primeiro passo da caminhada é apagar os olhos, escorregar no sono e entrar na floresta cifrada. Sob a sombra fechada das árvores, entre sapos beiçudos, charco, lama, atoleiros provocados pelas águas dos rios, Norato avança e cumpre as missões impostas pelo mascarão que encontra no meio do caminho: passar por sete portas, ver sete mulheres brancas de ventres despovoados, guardadas por um jacaré; entregar a sombra para o Bicho do Fundo; fazer mirongas na lua nova; beber três gotas de sangue.

 

Norato cumpre as provas, mas não encontra a moça. Avança sozinho pela selva insone. O entusiasmo inicial cede a um certo desalento: ‘Onde irei eu que já estou como sangue doendo das mirongas da filha da rainha Luzia?’

 

A região torna-se lúgubre. É a floresta de hálito podre, de raízes desdentadas saltando do lodo. Na Escola das Árvores, uma árvore velha enfileira impiedosa as jovens árvores condenadas a produzir as folhas que cobrem a floresta. ‘Ai, ai, ai,’ gemem elas, ‘somos escravas do rio’.

 

Cobra Norato alcança o fundo da floresta, onde a terra é fabricada e as árvores passam a noite tecendo folhas em segredo. Está perdido em um escuro labirinto de árvores. A atmosfera pesada prenuncia tempestade. Pernaltas movem-se devagar, miritis abrem os grandes leques vagarosos, sapos coaxam com vigor. Desaba a chuva violenta: o vento saqueia as vegetação, nuvens negras se amontoam, lagoas arrebentam, árvores se abraçam.

 

Norato atola-se em um útero de lama, de onde sai graças à ajuda do tatu que se transforma também em companheiro de viagem. Vem um período de descanso e também de tristeza. Onde afinal andará a filha da rainha Luzia? O tatu propõe que partam para o lago Onça-poiema. Cobra Norato refresca-se nas águas do rio, comunga com os animais que por ali pastam. Quando partem novamente para o interior abafado da floresta, a noite já está se fechando.

 

O tatu avisa: começa naquele dia a maré grande. Os dois rumam, pelo mangue, paras as bandas do Bailique. Querem ver chegar a pororoca. Quando a lua cheia aponta, vem a onda inchada, rolando em vagalhões. Na força da enchente, eles navegam para uma polpa de mato onde Norato descansa e cisma: ‘o que é que haverá lá atrás das estrelas?’ Mas a fome aperta e dois vão para o patirum roubar tapioca.

 

Na casa das farinhadas grandes, as mulheres trabalham nos ralos mastigando os cachimbos. Joaninha Vintém conta o causo do boto que a surpreendeu enquanto lavava roupa. Vendo a animação da festa, Norato e o tatu viram gente. Cantam, dançam os chorados de viola, bebem cachaça. Na hora de partir, Joaninha Vintém quer ir junto, mas Norato não aceita. Pegam o corpo que ficou lá fora e continuam viagem.

 

Mais adiante, uma pajelança. A onça curuana entra no corpo do pajé, que examina os doentes de sezão, de inchado no ventre, de espinhela caída. Faz benzedura de destorcer quebranto, fuma, defuma, até tontear e cair. No meio da floresta, o som longínquo de um trem Maria-fumaça acorda o mato.

 

Ao longe, flutuando no rio, Norato vê um navio com casco de prata e as velas embojadas de vento. Navio não, corrige o tatu. É a Cobra Grande. Quando começa a lua cheia, ela aparece para buscar moça virgem. Enquanto a visagem vai se sumindo paras bandas de Macapá, Norato resolve: quer ver o casamento da Boiúna.

 

A caminho das bodas, Norato pede ao vento que o deixe passar, encontra-se com o saci e com o pajé-pato que lhe arreda o mato em troca de cachaça. O herói e o tatu vaõ com força, nem se escondem para ver as moças tomarem banho na ponta do Escorrega. O tatu está aflito, apressado, mas Cobra Norato avisa: ‘Devagar que chão duro dói’.

 

Na casa da Boiúna, um cururu se posta de sentinela. Norato esgueira-se pelos fundos da grota e avista a noiva, que não é ninguém menos que filha da rainha Luzia. Mas Cobra Grande acorda e começa a perseguição sem fim. Norato pede a tamaquaré, seu cunhado, que corra imitando seu rastro e entregue o seu pixé na casa do pajé-pato. Em cima da hora! Cobra Grande passa rasgando caminho. Chega à morada do pajé que lhe ensina o caminho errado: ‘Cobra Norato foi pra Belém se casar’. E lá se vai a Boiúna direto para Belém. Entra no cano da Sé e fica com cabeça enfiada debaixo dos pés de Nossa Senhora.

 

Cobra Norato volta para o Sem-fim, para as terras altas onde a serra se amontoa. Leva consigo a noiva, para estar com ela numa casa de porta azul piquininha pintada a lápis de cor. É lá que ele espera pela gente do Caxiri Grande, por Joaninha Vintém, pelo pajé-pato, por Augusto Meyer e Tarsila, por todo povo de Belém, de Porto Alegre e de São Paulo para a festa de casamento que há de durar sete luas e sete sóis.

 

OS LINKS

 

Para baixar a representação teatral que o Grupo Giramundo criou para o poema Cobra norato, clique aqui e aqui.

 

OBS: As informações aqui reproduzidas foram extraídas do site do Grupo Giramundo e do Portal Domínio Público.

  1. felipe
    21, agosto, 2009 em 21:10 | #1

    cara essa historia e show olha so so muito bom em lendas e mitologiagrega mas
    seu livro ficou otimo ta de parabens cara adorei
    alenda da cobre Norato =)!!!!!!

  2. Igino
    2, março, 2010 em 21:26 | #2

    Esse livro realmente é muito bom, cheio de metalinguagem, o que complica um pouco para entender alguns sentidos que o autor expôs, o que nos ajuda ainda mais pra enriquecer nosso conhecimento, enfim, Bopp foi muito feliz nessa obra :D

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