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Mistério e fragilidade, Carlos Heitor Cony

E na segunda-feira começa o mistério. A casa não tem por onde: nem reposteiros nem mordomos – coisas que propiciam suspenses e mistérios. É amplo o apartamento, sem escuros, sem ângulos mortos, sem portas falsas, sem cadáveres emparedados. Mesmo assim, o mistério começa pelo meu guarda-roupa: vou procurar o blusão de estimação, velho blusão por sinal, desfiado já de tanto uso e suor, e encontro a gaveta revirada, outros blusões amassados e – o mais importante – nenhum vestígio blusão predileto.

 

Não estou em trajes decentes para invadir o corredor e clamar pelo blusão. Tenho de me vestir de paciência e calças. Mas em vestindo as calças, procuro pela carteira e encontro-a em outro canto. Dentro de uma gaveta onde nunca me passou guardar o dinheiro.

 

Inocentemente, não percebo ainda que tramam contra mim. Mas, súbito, vem a suspeita: abro a carteira, conto o dinheiro. Nunca sei a quantas ando, mas tenho vaga idéia de estar eventualmente abonado. Os dedos aflitos correm pelas notas cor de abóbora, uma, duas, três, quatro, e logo a cara hostil do Deodoro da Fonseca numa nota de vinte avisa-me que acabavam as de mil, mas sabia que tinha sido roubado.

 

Grito pelas empregadas. A cozinheira chora, a arrumadeira ameaça despedir-se, o bode está definitivamente e irremediavelmente armado. E o mistério não pára.

 

Mais tarde, atendo a enigmático telefonema que me sonda a antropometria:

 

– É com o senhor mesmo que desejo falar. Qual é o seu colarinho?

 

– O quê?

 

– Colarinho.

 

Avanço o número, mas o camarada me pergunta se sou sólido ou frágil, quantos quilos peso, meu tamanho da cabeça aos pés.

 

– O senhor é papa-defuntos?

 

– Não. Não sou papa-defuntos. Papo os vivos mesmo.

 

E desliga.

 

Aterrado, sondo as esquinas durante a tarde, à espera da punhalada fatal que está a caminho. Alguém me roubou a roupa e o dinheiro, alguém já providenciou um organismo para substituir o meu, tudo está pronto, só falta o principal: o meu cadáver.

 

No dia seguinte, vou catar uns livros no recanto mais sagrado do escritório e dou com um embrulho todo enfeitado. Pode ser uma bomba ou uma serpente, mas também é péssimo gosto embrulhar bomba ou ofídios em papel da Casa Otto. Arrisco o dedo e sinto o macio do linho lá dentro.

 

Então vou pedir desculpas à empregada, prometo aumentos no ordenado, sou vil no arrependimento. E espero pelas duas meninas que tramaram aquilo tudo. Chegam da escola com a cara de sempre, as bochechas suadas, e vendo as bochechas suadas perco a vontade de um interrogatório severo. Opto pelas insinuações.

 

– Sabe que deu ladrão aqui em casa? Roubaram dinheiro do papai.

 

Dando provas de excelente mau caráter, as duas estão preocupadas em mudar o uniforme, chegam a cantarolar “Let’s twist again” numa comovente prova de insensibilidade pelo paterno drama.

 

*******************************************

 

Bem, amanhã é Dia dos Pais. Acordarei com as duas meninas em cima de mim e terei de revidar o mau caráter delas com o meu mau caráter, e fingir. Fingir surpresa diante do embrulho. Fingir espanto diante do blusão novo, igualzinho ao antigo de que tanto gostava. Fingir que não sei o preço. Mas isso não me custará muito.

 

Cruel será manter a cara enxuta, os olhos apenas sonolentos, ásperos, sem direito às lágrimas, e o peito encouraçado, sem pretexto para o soluço. E doloroso será abraçá-las sem poder revelar a fragilidade do adulto escuro e medonho em que me transformei. Essa fragilidade que escora o homem só é desnecessário a que estou me habituando e cuja fortaleza – única e imerecida – são dois pequeninos rostos que me beijam e me afagam, como somente as crianças afagam e consolam.

2 Comments

  1. Postei o video do Jan, pra ti!

  2. Muitíssimo obrigado.
    Baixei.

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