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Apresentando “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto é um dos mais ricos poetas da atual Literatura Brasileira. Dono de uma acentuada tendência para a utilização de uma linguagem concisa e elíptica, produz seus poemas com a consciência de que a obra deve ser contida, sem expansão dos sentimentos, descrendo das explosões irracionalistas ou sentimentais. Volta-se para a busca do preciso, do concreto, do visual. Ao escrever Morte e vida severina, em 1955, pretendeu reconstruir os autos de tradição medieval. Como linha mestra, coloca a trajetória do migrante nordestino em busca de um mundo melhor no litoral. Por onde passa, Severino, o retirante, encontra miséria, morte, pobreza, sofrimento, como partes da “vida” em oposição à “morte”, em direção a que são despejados. No entanto, há uma quebra na trajetória do desconsolo ao nascer uma criança, representando a fé-esperança (Natal) que ressurge a cada vida que brota. Poesia engajada, retrata a dura realidade das populações nordestinas. Encenado em 1966 pelo Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), este auto de natal pernambucano, com direção de Silnei Siqueira e músicas de Chico Buarque de Holanda, conquistou o maior prêmio concedido pelo Festival do Teatro Amador de Nancy, na França.

 

Morte e vida severina foi escrito em 1954/55, por encomenda de Maria Clara Machado, então diretora do grupo O Tablado, que não pôde levar ao palco a peça. Publicado inicialmente no livro Duas águas (1956), o texto foi finalmente montado pelo grupo do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), dirigido por Roberto Freire e Silnei Siqueira, com música de Chico Buarque de Holanda, e obteve sucesso mundial numa turnê em 1966. A partir daquele ano, passou a integrar o volume Poemas em voz alta, que reúne a parcela mais comunicativa da obra do “poeta engenheiro”.

 

João Cabral de Melo Neto dividiu sua obra em duas “águas”, duas facetas como as do telhado de uma casa: a primeira seria a da comunicação restrita, elaborada e de difícil consumo; a segunda, uma poesia mais popular, de compreensão mais imediata, de comunicação com um público mais amplo e menos cultivado. Nesta última se incluem os seus “poemas em voz alta”, que foram escritos para serem lidos a um público ouvinte. O poema dramático Morte e vida severina com certeza pertence à segunda “água”, pois, embora tenha algumas características fundamentais do poeta cerebral que é João Cabral; como o rigor formal da metrificação variada e aproximativa e das rimas toantes e o “falar com coisas”, a utilização de imagens contundentes e concretas; foi escrito com o intuito de alcançar um público maior e recorre a diversas fontes da poesia popular na sua elaboração.

 

O subtítulo do livro revela seu débito aos autos sacramentais da tradição ibérica medieval, dos quais herda o teor poético e alegórico, assim como uma tendência à justaposição das cenas e à sátira dos costumes. Além de se inspirar na antiga poesia narrativa ibérica, os romances, João Cabral reelabora parodicamente, nas cenas do presépio final a poesia do folclore pernambucano. Outra influência clara na concepção do livro é o Regionalismo de 30, com sua preocupação realista de observação, crítica e denúncia social que podemos encontrar em autores como José Américo de Almeida, Rachel de Queirós e, principalmente, Graciliano Ramos.

 

Dois procedimentos chamam à atenção de imediato no título do livro. A inversão do sintagma vida e morte e a adjetivação do substantivo próprio Severino. Tais recursos poéticos colaboram para realçar aspectos importantes na composição da obra. Segundo Marta de Senna: Ao inverter a ordem natural do sintagma vida e morte, o poeta registra com precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante o adjetivo severina. Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas, anônimas. O procedimento de adjetivação do substantivo é recorrente na poesia de Cabral, e aqui adquire especial relevo por estar em posição privilegiada, no título da peça. Morte e vida severina, porque é Severino o protagonista, que, desde a apresentação, insiste no caráter comum de seu nome, antes um a-nome no contexto em que vive. De substantivo próprio, Severino passa a ser comum; daí a ser adjetivo é um passo. (…) Será interessante advertir que o uso de severino como adjetivo no auto cabralino não é senão a reversão da palavra à sua origem. Diminutivo de severo, severino é originariamente um adjetivo. Daí, passou a ser nome próprio, como ocorreu em tantos outros casos nas línguas ocidentais: Augusto, Cândido, Cristiano, Pio, Clemente – para citar apenas alguns exemplos. Ora, o que Cabral realiza é exatamente o retorno do adjetivo ao adjetivo, sendo o novo enriquecido da carga semântica de que foi alimentado durante o estágio substantivo próprio, que, no caso específico, é o Severino anônimo do sertão nordestino.

 

É importante acrescentar que, além de descrever uma vida presidida pela morte, o título também demonstra o percurso feito por Severino durante a peça. Sai da morte para alcançar a vida. A estrutura geral da peça, ou sua macroestrutura, apresenta exatamente este caminho.

 

Morte e vida severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos, todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo, praticamente resumos do que encontramos nos poemas em si. Podemos separá-los em dois grandes grupos.

 

As primeiras 12 cenas descrevem a peregrinação de Severino, seguindo o rio Capibaribe, fugindo da morte que encontra por toda parte, até a cidade do Recife, onde, para seu desespero, volta a encontrar apenas a miséria e a morte. Trata-se do caminho ou fuga da morte. Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino a diálogos que trava ou escuta no caminho. As últimas 6 cenas apresentam o presépio ou o encontro com a vida, em que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina, em clara alusão ao nascimento de Jesus. A peça se encerra, portanto, com uma apologia da vida, mesmo que seja severina. Toda esta parte, com exceção do monólogo final do mestre carpina, foi adaptada por João Cabral de Melo Neto dos Presépios ou Pastoris do folclore pernambucano.

 

Para baixar o livro, clique aqui.

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