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Metonímia, memória e engajamento em “São Bernardo”, de Graciliano Ramos

Em São Bernardo, o pio da coruja funciona como um elemento metonímico que remeterá Paulo Honório [e o leitor] à figura de Madalena.

 

É este elemento que ativará a vontade do narrador de compreender Madalena, o que será feito através do processo de construção do romance.

 

Depois de desistir de construir suas memórias pela “divisão do trabalho”, lêem-se estas palavras do locutor, ao início do capítulo 02: Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja – e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus próprios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta.

 

Esta citação permite-nos afirmar que é a tentativa de compreender Madalena e, por extensão, a si mesmo e à vida que levara, que lança o Paulo Honório em direção ao ato da escrita, que funcionará como um processo de “anamnese”, ao fim do qual, enfim, o narrador-protagonista consegue vislumbrar um entendimento sobre os fatos que vivenciara.

 

Como resultado desse processo, Paulo Honório consegue entender a si, à sua esposa e, conseqüentemente, a vida que levara e o que os conduzira ao destino trágico.

 

Ao final do romance, encontramos um Paulo Honório ciente de quais foram as forças que o levaram à derrocada [tanto econômica quanto afetiva].

 

A vida estagnada é conseqüência da desumanização extrema a que submetera e que o deixara sem mulher, sem filhos, sem amigos, sem crédito e sem vontade de produzir.

 

O interessante é que nem a situação em que se encontra nem a consciência adquirida através do processo de compreensão da vida que levara são capazes de mudar o protagonista.

 

No capítulo 36, entrevê-se uma consciência desesperada que faz a seguinte afirmação: Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.

 

É o final do romance. É o final da vida de Paulo Honório. O que resta daquele homem dinâmico que vencera a tudo e a todos na tentativa de possuir as terras de São Bernardo? Apenas a certeza de que a sociedade que engendrara aquele “aleijão” é desumana, desigual, e precisa ser transformada. Eis o “romance de tese”, a “literatura engajada”.

 

Ao se utilizar do “tempo cíclico” para estruturar São Bernardo [os eventos relatados ao início – capítulos 1 e 2 – e ao final do romance – capítulos 34, 35 e 36 – são exatamente os mesmos: o protagonista está sem vontade de produzir, sem crédito na praça, sem filhos, sem mulher e sem amigos], Graciliano Ramos prova que o segmento social analisado no seu romance [elites agrárias que estavam no poder antes da Revolução de 1930] é estanque e não está aberto a mudanças.

 

Tal como ocorre em Vidas secas, a leitura da história de Paulo Honório lança o leitor numa situação de angústia e inconformismo e o faz desejar mudanças que tornariam mais humanos os seres que se defrontam com as situações transcritas magistralmente em São Bernardo.

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