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A tradição popular no “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna

A maioria dos temas de Ariano Suassuna pertence à tradição popular advinda dos folhetos e dos folguedos nordestinos. Nela identificam-se vários deles, como o valentão covarde, a morte fingida, o enterro e o testamento do cachorro, o animal que defeca ouro, as trocas. Também personagens, como João Grilo e Canção. Trata-se de temáticas universais, que são recorrentes em inúmeras literaturas populares.

 

A falsa morte de Chico, no Auto da Compadecida, vem do folheto “O enterro do cachorro”, fragmento de O dinheiro, de Leandro Gomes de Barros. Mas já está presente em Dom Quixote, no episódio de Bodas de Camacho, em que o jovem enamorado finge suicídio para casar-se com a amada in extremis e ressuscita logo após. No entanto, o tema retoma a mais longe, pois no Asno de ouro, Apuleio mostra como a magia malfeita pode transformar Lúcio em burro – o que não deixa de ser uma falsa morte.

 

O testamento do cachorro é altamente recorrente, como verificamos a partir de informações obtidas em estudos como os de Martinez-López, Girodon e Santos. Vemo-lo presente em textos desde a Idade Média até o século XX. As mais antigas incidências medievais mostram-no em francês, no Testament de l’âne, de Ruteboeuf [século XIII], e em latim, na Facetia XXXVI do toscano Poggio de Bracciolini [1380-1459], sob o título De sacerdote qui caniculum sepelivit. É registrado também no número 96 das Cent nouvelles nouvelles, coletânea escrita por vários autores franceses e publicada em 1455.

 

A história do cavalo que defecava dinheiro, de Leandro Gomes de Barros, fornece ao Auto da Compadecida um dos temas mais recorrentes da literatura universal. Martínez-López encontra 105 versões, sendo 27 hispânicas, 62 não hispânicas, 16 orientais e africanas. Encontra-se, ainda, na cena 2, segunda parte da comédia Os encantos de Medea [1735], de Antônio José da Silva, o Judeu, no qual se menciona um burro que caga dinheiro.

 

Além dos temas, de origem imemorial, Suassuna absorve personagens da cultura popular. Eles provêm do mamulengo e do circo, mas os mais famosos são tomados aos folhetos: João Grilo e Canção. Os dois “amarelos” ou “quengos” encarnam o sertanejo esperto e maltrapilho. Estes sabidões aparentados aos “pícaros” fazem parte de um tipo específico de romances de astúcias, largamente difundidos na literatura popular européia. São tipos que permitem, por sua condição, uma série de reflexões sobre as desigualdades sociais. Para contrabalancear o poder dos patrões ou dos senhores, só cabe ao empregado a astúcia.

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