K de know how, de Vilma Arêas
Entrava pelo banheiro, saía pelos tapetes da sala, escorria ao longo do corredorzinho, submergia aos pés do aparador.
Elas miam atrás do andor: tacões, cachos selados, unhas no trançado dos pés, a velha, a moça, por turnos, as gengivas atrás dos lábios.
– Uma xicrinha de café?
– Um biscoitinho?
– Uma cibalena?
A velha põe os óculos de louça, a moça separa os cílios, um a um.
Saindo, exaustas balançaram os corpos, a moça de cabelo liso, a velha sentando-se nos fios finos. Fluíam das têmporas ao pescoço, ocultando-se sob o vestido.
A moça sacudia a cabeça, enjoada: o morno campo de sangue e merda.
– Passei tão mal a noite, mamãe!
Os pontos caíam um a um de agulhas repletas.
– Reparou? As olheiras…
– Claro, ele devia se alimentar melhor.
– Quando eu morrer…
– Ora, mãe, deixa disso. Eu tomo conta dele!
– Não é a mesma coisa.
– Coitado, como tem sofrido!
– Ele puxou a mim.
– As olheiras…
– São as decepções.
Moça protege os olhos, apanha um álbum sobre a mesinha.
– Olha quantas mulheres lindas!
Com ar sonhador.
– Não tem temperamento!
– Isso é.
– Ana como era linda!
– Deixou até o marido. Nem assim ele casou.
– Tinha coxas bem lisinhas.
– E a Bebé?
– E a Cidilina?
– E a Maria Aparecida?
– Era doutora…
A moça fecha o álbum, espanta os dedos da velha para longe.
Podiam relaxar a vigília quando vinha a noite e as sombras mexidas nas poltronas: tomavam chá.
– Olha, mãe, olha, mana, vou casar.
Convidam a noiva para um almoço.
As mulheres marchavam pela calçada, tacões altos, tesas. A noiva será de boa família, ascendência italiana.
Visitavam os parentes, solenes.
– Ela vai casar!
– As mulheres italianas são tão lindas!
– Pode ser que desta vez…
Estavam de frente uma para a outra, brutas, braços caídos; as axilas estão rodeadas de umidade, manchando as blusas.
Depois do almoço moviam-se cuidadosas, a despeito da precipitação.
O anel de noivado!
Ele transpirava, tranqüilo.
– Uma safira para combinar com os olhos de Marinela.
– Brilhante é que é anel de noivado – insistiu a moça perigosamente, amparando os cílios.
– Desta vez quero uma safira.
Foram a Paquetá, ele alisava os seios italianos sobre a blusa, no aperto da barca.
– Não respeita tua noiva? Quando a gente casar não te dou sossego, mas agora…
– Marinela, me dá um retrato teu.
Toda encantada.
– E para quê? Já tens o original!
– Um com dedicatória.
Mão pregada no peito, com dificuldade a velha tricota, mas pouco a pouco adquire rispidez; o novelo acelera aos arrancos do coração. Moça lambe minuciosamente as cantoneiras, prega o retrato no álbum.
– Marinela! Como era linda!
– Muito linda! A mais linda de todas!
Os olhos pesam, pesam, pesam, como as corolas encharcadas de luz.
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