Desencanto, de Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.
O primeiro poema da coletânea é também o primeiro de A cinza das horas, de 1917, livro de estréia de Manuel Bandeira.
Apesar de ter sua obra associada à Primeira Geração do Modernismo Brasileiro [como atestam os também metalingüísticos e importantíssimos “Poética” e “Os sapos”], é no panorama Simbolista que Bandeira desponta.
Neste poema, isso fica claro através da opção pelo uso da quadra [na verdade, este poema, em A cinza das horas, tem estrutura diversa da apresentada na coletânea da Editora Ediouro: é formado por três quadras] e do verso eneassílabo, mas principalmente por intermédio da associação do ato poético a uma função expressiva da linguagem.
O ato poético insinua-se, aqui, com uma função catártica – de purgação, de extravasamento da subjetividade –, o que permite, ainda, associá-lo – na obra de Bandeira – a uma visão romântica, tradicional, popular, de poesia.
Em “Desencanto”, é possível perceber duas linhas temáticas importantíssimas na poética bandeiriana, a saber: a associação entre poesia e vida [de que vai resultar inúmeros poemas em que o lírico se funde ao biográfico tais como “Evocação do Recife” e “Pneumotórax”] e a poesia a serviço da expressão de enlevos eróticos e amorosos.
