Página Inicial > Manuel Bandeira > Manuel Bandeira e a primeira geração do modernismo brasileiro

Manuel Bandeira e a primeira geração do modernismo brasileiro

Ao tentar situar a poética de Manuel Bandeira na produção literária e cultural do Brasil, o crítico Davi Arrigucci Júnior esboça, inicialmente, o retrato do poeta e focaliza, também os caminhos por ele trilhados. O procedimento do crítico não está destituído de razões.

 

Esquivando-se das velhas lições que ensinam a explicar a obra como um reflexo da vida, Arrigucci Jr. Lembra que o componente biográfico e social da experiência marcada pela morte constitui um fio narrativo importante e decisivo na configuração poética bandeiriana.

 

A escrita revela-se como um exercício, produto de ma longa e difícil aprendizagem, resultado de uma lenta formação humana e artística. Liga-se à memória da infância, ao imaginário da doença, à descoberta do corpo, do desejo e do amor, à pobreza do filho de família nordestina tradicional em decadência, à solidão do indivíduo ilhado em um quarto modesto, onde se resguarda para sobreviver, recolhendo no dia-a-dia a lembrança dos que se foram.

 

A motivos estritamente pessoais, somam-se razões de outra natureza, que dizem respeito ao grande convívio com as questões culturais do seu tempo. Leitor curioso e obsessivo, Bandeira acumulou um vasto conhecimento nos campos da Astronomia, Filosofia, História, Folclore, Mitologia, Psicologia, Religião, etc. Dedicou, porém, maior atenção às manifestações estéticas, sobretudo às Artes Plásticas, à Música e à Literatura.

 

No âmbito da produção literária, objeto específico de nosso interesse, Manuel Bandeira revelou-se um autor capaz de apropriar-se da tradição para instaurar a ruptura e inaugurar o novo, o moderno.

 

Herdeiro da tradição, soube como poucos resgatar do Medievalismo português o lirismo das cantigas, das baladas, dos rondós. Do apreço medieval pelo cristianismo, apreender a idéia de que os objetos humildes do cotidiano trazem consigo o sublime, do mesmo modo que os mais altos mistérios podem habitar as palavras mais singelas. Do realismo machadiano, tirou lições de humor, de ironias que ampliaram, sem dúvida, suas possibilidades de crítica. Bandeira soube responder, também, aos preceitos do Parnasianismo, atendendo as exigências do apuro formal, da precisão vocabular, consciente de que a palavra é o objeto maior da criação poética. Com o Simbolismo, conheceu a magia do inconsciente, o prazer advindo do devaneio, do sonho, o mundo encantado das palavras impregnadas de musicalidade.

 

Vale advertir, porém, que a poética bandeiriana não resultou de uma mera apropriação dos elementos estéticos tradicionais: ela recriou o que já fora anteriormente criado e, por tal motivo, é apontada por Haroldo de Campos como “desconstelizadora”. Explicando melhor a expresso, o crítico assinala que a obra de Bandeira ocupa o sutil espaço entre o lugar comum e o original, ela tem a propriedade de apresentar o novo a partir de uma simples mudança de ângulo, de enfoque, ou ainda, de contexto. Diante das palavras consteladas/consagradas pelo uso em um planetarium fixo de significações e associações o poeta se comporta como um operador rebelde que se insubordina contra as figuras sempre repetidas e, subitamente, oferece o inusitado, a surpresa, novas estrelas-palavras.

 

Recriar a tradição, oferecer o novo são feitos que não acontecem de forma mágica. Resultam de um incessante processo de leitura. Nasce da inquietude, da busca, da sensibilidade e, é claro, do convívio com as mais diversas tendências e manifestações artísticas.

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. Nenhum trackback ainda.